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terça-feira, julho 5, 2022
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1889: o Príncipe e a Notícia Bombástica

Qual Era o Teor do Telegrama Recebido Pelo Almirante Custódio de Mello? Por Que o Império Brasileiro Era Visto Como a Mais Sólida e Duradoura Experiência de Governo da América Latina? Qual Era a Situação do Príncipe Dom Augusto a Bordo do Navio Brasileiro no Ceilão?

 

Nas últimas semanas de 1889, a tripulação de um navio brasileiro ancorado em Colombo (capital do Ceilão, atual Sri Lanka), foi surpreendida com a notícia que chegava do Brasil através de um telegrama endereçado ao comandante (Almirante Custódio José de Mello): _ “Brasil República…..Bandeira a mesma, sem coroa”.

A mensagem só confirmava os rumores ouvidos pela tripulação na escala anterior (Indonésia) de que o governo brasileiro havia sido derrubado e o país passara por uma drástica mudança de regime.

O Império brasileiro, até então visto como a mais sólida, estável e duradoura experiência de governo da América Latina, com 67 anos de história, desabara na manhã de 15 de novembro.

O admirado imperador Pedro II, um dos homens mais cultos da época, que ocupara o trono por quase meio século, fora obrigado a sair do país com toda sua família e vivia agora exilado na Europa, banido para sempre do solo em que nascera.

O comando da nova República estava agora entregue às mãos de um Marechal já idoso e doente.

À primeira vista, eram informações tão improváveis que o comandante preferiu ignorá-las na crença de que o Império continuava sólido como sempre. Ele estava tão seguro disso que, no dia 2 de dezembro, aniversário do Imperador, ordenou que a bandeira imperial fosse hasteada como mandava o regulamento da Marinha brasileira.

Mas, o telegrama recebido não deixava dúvidas e o país se tornara de fato uma República.

Segundo instruções enviadas do Rio de Janeiro a bandeira nacional continuava praticamente a mesma, desaparecendo apenas a coroa imperial. Até aquele momento ninguém sabia o que colocar no lugar da coroa, pois o comunicado avisava que o navio só receberia a nova bandeira quando chegasse à Nápoles, meses mais tarde.

Um segundo telegrama dizia que, até lá, o comandante teria que improvisar.

Porém, havia um segundo problema a ser resolvido. Era a presença a bordo do segundo-tenente Augusto Leopoldo de Saxe-Coburgo e Bragança de 22 anos.

O Príncipe Augusto era uma das figuras mais importantes na hierarquia social brasileira, pois ele era neto do Imperador Pedro II, herdeiro do trono, quarto colocado na linha sucessória, depois da tia (a Princesa Isabel), do primo (Pedro de Alcântara) e do irmão mais velho (Pedro Augusto).

Como o governo provisório havia banido toda a família imperial, Dom Augusto estava impedido de continuar a viagem como oficial da Marinha e, por isso, ele deveria desembarcar imediatamente.

No entanto, na prática, enquanto cruzava o Oceano Pacífico, ele tinha perdido não só o posto de oficial e o título de Príncipe, como a própria cidadania brasileira.

O telegrama recebido pelo comandante era categórico a respeito das intenções do novo governo republicano: _ “Príncipe peça demissão serviço”. Ao mostrar o telegrama a Dom Augusto, Custódio de Mello estava visivelmente constrangido, pois além de herdeiro do trono, o Príncipe era até então um exemplar oficial da Marinha brasileira.

Depois de ler o documento Dom Augusto respondeu que só tomaria uma decisão depois de consultar o avô, o Imperador D. Pedro II. “Sua Alteza faça como lhe convier” – respondeu-lhe o comandante.

E, com a conivência da tripulação, Dom Augusto conseguiu comunicar-se por telegrama com o avô, exilado na Europa.

Na manhã seguinte, Dom Augusto procurou o comandante para informa-lo que, em vez de renunciar, concordava em pedir uma licença do serviço militar.

Este, aliviado, telegrafou ao novo Ministro da Marinha comunicando a decisão e recebeu uma resposta dúbia para selar o destino do jovem Príncipe: “Príncipe peça renúncia cargo, outorgo licença”.

Feitas as contas de quanto deveria receber pelo serviço prestado até ali, Dom Augusto desembarcou em 20 de dezembro. Antes foi homenageado pelos demais tripulantes com um emocionado jantar no Hotel Oriental, na capital do Ceilão.

Ali, o Príncipe distribuiu parte de seus pertences e, ao mais pobre dos tripulantes, ele ofereceu seu piano. A outro, entregou sua espada e transferiu o restante de sua bagagem para outro navio.

Seguiu ao encontro de seus familiares na França e morreu na Áustria, 32 anos mais tarde, sem jamais ter pisado novamente em solo brasileiro.

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