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sexta-feira, maio 14, 2021
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A cartilha básica da gestão de crises

Quando os hospitais italianos entraram em colapso por decorrência da pandemia de coronavírus no início de 2020, o Brasil teve a oportunidade de assimilar os acontecimentos e organizar sua própria gestão da crise. Contudo, mesmo com semanas à frente da previsível escalada no número de contaminados, o país foi incapaz de se preparar. As lideranças nacionais não tiveram a decência de realizar uma trégua mínima nos embates partidário-ideológicos. O que se verificou foi a incapacidade generalizada dos governantes em colocar divergências menores de lado e o descompromisso com a ética pública. Um ano depois, com mais de trezentas mil mortes brasileiras, o país continua reprovado na cartilha básica do gerenciamento de crises.

Os cinco eixos-básicos em situações críticas são notórios: comando, dados, plano de ação, comunicação e cooperação. O passo mais elementar em resposta à crise é montar o centro de comando com uma equipe multifuncional. Cada integrante deve receber a devida responsabilidade bem como a autoridade necessária para tomada de decisões rápidas e eficazes. Com o comando definido é possível coordenar os esforços estrategicamente. A partir dele são estruturadas subequipes para gerenciar fluxos de trabalho específicos como científico, sanitário, epidemiológico, jurídico, econômico, comunicacional e assim por diante.

Na sequência, é necessário reunir dados acurados e compreender os fatos. O que está acontecendo? Quantas pessoas foram atingidas? Quais as demandas? O que já está sendo feito? Enfim, os fatos precisam ser clarificados, mensurados, classificados, compreendidos, e não negados. Somente a reunião de informação qualificada pode esclarecer quais são os verdadeiros problemas que precisam ser enfrentados.

O centro de comando municiado com dados está habilitado a elaborar um plano de ação.

São necessárias respostas proporcionais aos sofrimentos da população. Preservar a vida das pessoas é a grande prioridade. Desafios complexos como a pandemia da Covid-19 não permitem decisões binárias e simplistas. Crises, por definição, são situações de alta instabilidade. Portanto, é necessário esforço contínuo, revisão e atualização ininterrupta do plano.

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A comunicação eficaz do plano de ação também é vital. As falsas informações precisam ser extirpadas. Quando a difusão de notícias falsas e teorias da conspiração envolve doenças, existe um alto risco para a saúde pública. Diante do cenário conturbado, a Organização Mundial da Saúde denominou a massiva circulação de desinformação de infodemia. Difundir informações com clareza e credibilidade é indispensável porque a infodemia também mata. Um dos exemplos notórios em 2020 foi a morte de cerca de setecentos iranianos, além de outros cinco mil prejudicados fisicamente, após a ingestão de álcool metanol como suposto remédio para o coronavírus.

Todas as etapas exigem da parte de todos e todas a disposição para cooperar. A união de esforços em favor de um objetivo comum é o fundamento de qualquer associação. Um grande exemplo veio das lideranças políticas israelenses e palestinas: selaram um pacto de não-agressão em favor da luta prioritária contra o coronavírus. Especialmente nas democracias constitucionais, onde a divergência política é legítima (e até desejável), um esforço convicto na cooperação é necessário. Como pontuou Alexis de Tocqueville no clássico A democracia na América, “nos países democráticos, a ciência da associação é a ciência-mãe; o progresso de todas as outras depende do progresso desta”.

Há muito mais a dizer sobre gestão de crises, o problema é que ainda não fazemos o básico. O governo federal que, por óbvio, é o detentor das maiores responsabilidades em uma crise como esta, falhou miseravelmente em todas as etapas. Teve acertos pontuais como viabilizar a renda emergencial, mas nos eixos-centrais atuou aquém do devido. Entre outras coisas: ignorou a gravidade da situação; não estabeleceu um centro de comando organizado e qualificado; trocou quatro vezes o ministro da saúde em plena pandemia; não abriu canais inteligentes de diálogo com os secretários estaduais de saúde; não apoiou o desenvolvimento nem a compra de vacinas; divulgou tratamentos sem comprovação científica; não estruturou um plano de ação nacional e multifuncional; quando questionado sobre cronogramas, afirmou que a vacinação começaria “na hora H do dia D”. O passado recente é indelével e indigesto, mas devemos concentrar esforços no presente porque a pandemia continua.

Nas últimas semanas uma terceira onda de contaminação avançou em países europeus como França, Itália e Alemanha. Não podemos ficar inertes, mas aprender rápido com nossos próprios erros, avançar no gerenciamento da crise e preservar milhares de vidas brasileiras. Na obra-referência Gestão de Crises em um Mundo Complexo, publicada pela editora da Universidade Oxford [ainda sem tradução em português], Dawn Gilpin e Priscilla Murphy afirmam que “nos primórdios da medicina, o termo crise referia-se ao ponto de virada de uma doença, quando o destino do paciente estava em jogo”. Crise, na Grécia antiga, não era momento de desastre, mas momento de discernimento e ação.

* Davi Lago é pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo

 

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