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terça-feira, julho 5, 2022
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A Infância, Juventude e Vida Social de Dom Pedro II

Como Foi a Infância de Pedro de Alcântara? Qual Era o Grau de Cultura do Imperador? Que Artes o Imperador se Dedicava na Adolescência? Por Quem Pedro de Alcântara Foi Criado e Educado? Qual Foi a Reação do Imperador ao Conhecer Sua Futura Esposa?

Pedro de Alcântara de Habsburgo e Bragança governou o Brasil por 49 anos, 3 meses e 22 dias. No século XIX, apenas a Rainha Vitória (Inglaterra) permaneceu mais tempo no trono do que ele (63 anos, 7 meses e 2 dias).

Quando assumiu o trono (23 de julho de 1840), ele era um adolescente ainda imberbe e tinha 15 anos incompletos. Ao ser deposto em 1889, a duas semanas de completar 64 anos, era um senhor de barbas brancas, semblante cansado e muito mais envelhecido do que indicaria a idade real.

Ao final de quase meio século na condução dos destinos brasileiros, ele deixou um legado impressionante, pois a unidade do país estava finalmente consolidada. A escravidão havia sido abolida no ano anterior, o Império enfrentou rebeliões e guerras externas mantendo sempre o mesmo sistema representativo, com a realização ininterrupta de eleições.

A Constituição e os regulamentos básicos haviam permanecido os mesmos e sem rupturas. Seria esse, até hoje, o conjunto de leis mais duradouro de toda a história brasileira.

Havia um sistema judiciário em funcionamento, em que as pessoas tinham direito de defesa e ninguém seria condenado sem prévio julgamento. A imprensa gozava de liberdade de expressão. Muitos desses atributos eram mais aparentes do que reais, porém, graças a eles, o Brasil se manteve como uma nação estável – ao contrário dos seus vizinhos na América do Sul.

Pedro II era um homem tímido, arredio a festas e a eventos sociais. À primeira vista, causava boa impressão pelos cabelos aloirados, os olhos azuis, a estatura imponente e a barba cerrada que lhe davam um ar circunspecto.

Mas, bastava abrir a boca para que essa imagem se esvanecesse, pois a sua voz era fina e aguda, própria de um adolescente. Em dias de cerimônia aparecia de meias de seda, deixando à mostra suas pernas muito finas que destoavam do físico avantajado ([1]).

Vestia-se de negro e deixava-se fotografar sempre com um livro na mão, indicando que, em um país carente de cultura e educação, o soberano era um exemplo a ser seguido. No entanto, ele próprio se encarregava de menosprezar seus próprios dotes culturais.

Até falecer no exílio, (5 de dezembro de 1891), em um modesto hotel de Paris, Pedro de Alcântara – como gostava de ser chamado – carregou em um só corpo dois (2) personagens distintos. O 1º foi o ser humano em carne e osso, cuja existência esteve sempre marcada pela tragédia familiar, pela orfandade de pai e mãe e pela carência afetiva.

O 2º foi o mito, sustentáculo de um Brasil que em determinados momentos necessitava de um símbolo, que o conduzisse ao futuro em meio às ameaças de rupturas de toda ordem. D. Pedro incorporou esses dois personagens e com eles conviveu com certa dificuldade.

Pedro nasceu com 47 centímetros em 2 de dezembro de 1825, sendo o 7º filho do Imperador Pedro I e da Imperatriz Leopoldina, além de ter sido o 3º príncipe homem da dinastia portuguesa dos Bragança ao nascer no Brasil.

Os dois primeiros – Miguel e João Carlos – morreram ainda recém-nascidos, confirmando a maldição que acompanhava a família Bragança de que seus primogênitos homens morreriam antes de assumir o trono.

Além de Miguel e João Carlos, Pedro e Leopoldina só tinham filhas – Maria da Glória, a mais velha seria a Rainha de Portugal com o nome de Maria II – e, em seguida, vieram Januária Maria, Paula Mariana e Francisca Carolina.

Por fim, quando o casamento dos pais já estava deteriorado pelo escândalo do romance do Imperador com Domitila de Castro, nasceu o pequeno Pedro de Alcântara. A mãe, Leopoldina, morreu no ano seguinte, mergulhada numa depressão que escandalizou toda a Europa.

Pedro II – o mito – entrou em cena em 7 de abril de 1831, data da abdicação de seu pai ao trono brasileiro. Naquela madrugada, D. Pedro I refugiou-se a bordo de uma nau inglesa e zarpou para a Europa, na companhia da sua 2ª mulher – a Imperatriz Amélia.

A imagem do herói da Independência – nove anos antes – foi corroída pelos escândalos pessoais, pela sua índole autoritária e pelo impossível equilíbrio entre os interesses brasileiros e portugueses.

Ao partir, ele deixou para trás – no Palácio de S. Cristóvão – o pequeno Pedro II de 5 anos, em companhia de 3 das 4 irmãs mais velhas. As crianças dormiam quando o casal se esgueirou na escuridão até a praia do Caju para embarcar em um navio inglês.

Pai e filho nunca mais se reencontraram e, em vez disso, trocariam cartas repletas de emoção até a morte de D. Pedro em Portugal, 3 anos mais tarde.

Chamado de “órfão da nação”, Pedro de Alcântara foi, desde a infância, um prisioneiro do próprio destino, alvo das intrigas que faziam dele instrumento do jogo de poder na corte do Rio de Janeiro.

Ao embarcar para a Europa, D. Pedro I nomeou como tutor do seu filho, José Bonifácio de Andrade e Silva, um homem sábio, determinado e experiente.

A estatura política de Bonifácio era insuportável para uma parte da elite brasileira, que o via com desconfiança e o queria longe do trono. Afastado da tutoria em 1833, “o Patriarca da Independência” foi preso por conspiração. Acusavam-no de liderar um complô para trazer D. Pedro I de volta ao Brasil e, julgado à revelia e absolvido após 2 anos, Bonifácio se recolheu em exílio voluntário na Ilha de Paquetá, até morrer em 1838 desiludido com os rumos do país que ajudou a criar.

O 2º tutor de D. Pedro II – Manuel Inácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho, o Marquês de Itanhaém – preparou-se para assumir um, rigoroso regulamento que todos deveriam seguir ao pé da letra. Essa detalhada rotina de estudos e exercícios diários ia das 7 da manhã até às 22 horas.

Tudo era regulado e controlado, pois os médicos cuidavam da temperatura do banho e as camareiras da roupa que deveria combinar com a estação do ano.

O Imperado-menino só podia visitar suas irmãs após o almoço, quando o quarto delas já estivesse arrumado. Os deputados supervisionavam sua educação emitindo relatórios periódicos que seus mestres enviavam à Câmara.

O relatório de 1837 anunciava que ele falava e escrevia francês, lia e traduzia inglês. O de 1838 dizia que era um estudante disciplinado e, o do ano seguinte, informava que o Imperador dominava bem o latim e tinha deixado todas as brincadeiras somente para ler e estudar. Com 7 anos, já era capaz de conversar em inglês ([2]).

Fez dos idiomas uma de suas paixões e, ao atingir a idade adulta, conseguia se comunicar em 6 línguas – francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, provençal – além do português, e também estudou grego, latim, hebraico, russo, árabe, sânscrito e tupi-guarani.

Tinha a saúde precária e, assim como o pai, sofria de epilepsia. Há registros de vários ataques entre 1827 e 1840 e, em 1833, teve uma crise nervosa aparentemente causada pela carência afetiva. No ano seguinte, ao receber a notícia da morte do pai em Portugal, teve um ataque de febre cerebral seguida de frequentes dores no estômago e alguns chegaram a duvidar que sobrevivesse.

Na ausência da mãe e da madrasta, apegou-se a Mariana Carlota de Verna Magalhães Coutinho (futura Condesse de Belmonte), dama da corte encarregada de sua criação a quem chamava de Dadama.

Era uma viúva portuguesa muito religiosa, que chegou ao Brasil com a corte de D. João em 1808. “Pedro II passou uma infância tristíssima, na qual experimentou carência emocional e manipulação psicológica. Refugiou-se no mundo dos estudos, particularmente nos livros, que lhe davam prazer e uma sensação de segurança” – disse o historiador britânico Roderick J. Barman.

O papel de instituição que lhe estava destinado desde a infância fez com que tudo lhe chegasse antecipadamente, como se precisasse envelhecer às pressas para dar um ar de seriedade ao jovem país, entregue ao seu comando.

Assim foi no ritual da corte, em que era tratado como um adulto. Ao conhecer o menino aos 12 anos de idade (em janeiro de 1838), o Príncipe de Joinville – seu futuro cunhado – anotou em seu diário: “Seus modos são os de um homem de 40 anos”.

Em 1840, às vésperas de assumir o trono no chamado “Golpe da Maioridade”, Pedro de Alcântara era um rapaz alto, de cabelos louro-bronzeados, magro e de olhos azuis – descrição de Lídia Besouchet.

Ao atingir a idade adulta, tinha 1,90 metro de altura e a cabeça grande. Só a voz fina e aguda destoava do conjunto e lembrava uma infância perdida pela orfandade precoce.

A cerimônia de consagração (julho de 1841) durou 9 dias, encerrada com um baile para 1.200 convidados no Paço da Cidade. O traje do Imperador era um manto verde decorado com ramos de cacau e tabaco coberto por uma camurça feita de penas de galo-da-serra.

À pressa da coroação, seguiu-se a do casamento por procuração, em maio de 1843 – sete meses antes de completar 18 anos. Sua noiva, Teresa Cristina Maria, era 3 anos e 9 meses mais velha do que ele. Irmã do Rei de Nápoles e Princesa das Duas Sicílias, ela descendia dos Habsburgo e dos Bourbon, duas casas imperiais mais importantes da Europa.

Sua chegada ao Brasil representou uma das muitas decepções que o Imperador acumulou na vida. No começo daquele ano os diplomatas brasileiros lhe enviaram imagens da Princesa, onde Teresa Cristina aparecia como uma jovem de traços delicados, olhar insinuante, ombros e bustos generosos.

Porém, ao conhece-la pessoalmente em setembro de 1843, o Imperador tomou um susto, pois ao contrário da imagem, Teresa Cristina era feia, baixa, rechonchuda e mancava de uma perna. Tinha braços curtos, mãos gorduchas, olhar inexpressivo, nariz comprido e pontiagudo.

Os cabelos negros e lisos partiam-se ao meio, ficando a um coque usado conforme a época pelas matronas italianas.

A primeira reação do Imperador foi rejeitá-la, mas já era tarde. Naquela época, casamentos entre Príncipes envolviam negócios de Estado e não competia aos noivos fazer escolhas. Inconformado, o Imperador chorou nos braços da Condessa de Belmonte e, ao contrário dele, Teresa Cristina apaixonou-se imediatamente pelo marido.

Superadas as dificuldades iniciais, D. Pedro II manteve com a Imperatriz um relacionamento educado, morno e protocolar como tudo o que envolvia o seu personagem mito-instituição. A vida do casal foi marcada pela tragédia desde o início, pois dos 4 filhos, dois morreram antes de completar 2 anos.

Confirmava-se mais uma vez a temível maldição dos Bragança, restando a D. Pedro II uma descendência só de mulheres. Isabel – herdeira do trono e futura Regente do Império – nasceu em 1846 e, Leopoldina Teresa, em 1847, embora só tenha vivido até os 23 anos.

Fora do casamento, D. Pedro II teve uma vida amorosa mais movimentada do que supõe a história oficial, mas, ao contrário de seu pai, conseguiu manter-se sempre discreto e protegido da curiosidade pública.

No entanto, conforme a historiadora Lídia Besouchet, tudo isso era só aparência, pois ela catalogou 14 namoradas. O número não é tão grande quanto o das amantes de D. Pedro I, mas inclui atrizes, damas da corte e até a mulher do Embaixador uruguaio André Lamas.

Muitas dessas paixões foram platônicas, mais idealizadas do que concretizadas e, outras, deixaram marcas de intimidade que foram muito além do flerte nos salões da corte. A suposta lista inclui Anne de Baligand, a quem D. Pedro II enviou presentes e cartas apaixonados durante a viagem à Rússia em 1876.

Inclui também Vera de Haritoff, célebre pela beleza e pelo ciúme que provocava entre os homens, além de Eponine Octaviano – primeira mulher de Francisco Octaviano, jornalista e político do Partido Liberal, companheiro de infância do Imperador.

Nenhuma dessas paixões se comparou à que ligou D. Pedro II à baiana Luísa Margarida Portugal de Barros – Condessa de Barral. Nove anos mais velha que o Imperador, Luísa era uma mulher de meia-idade, pele morena, nariz bem desenhado e grandes olhos negros. Os cabelos lisos e parcialmente grisalhos lhe davam um ar de experiência e sofisticação.

Além do português, ela falava francês e inglês um fluente e elegante. Era brasileira de nascimento, mas passou a maior parte de sua vida nos salões europeus. Seu pai – o Visconde de Pedra Branca – dono de fazendas no Recôncavo Baiano, foi deputado nas cortes portuguesas de Lisboa e embaixador brasileiro em Paris, após a Independência.

Luísa casou-se com um nobre francês – o Conde de Barral – e foi dama de honra de Francisca, irmã de D. Pedro II e casada com o Príncipe de Joinville. Em 1856, o Imperador contratou-a para supervisionar a educação das duas filhas (Isabel e Leopoldina). Começava ali uma história de amor que duraria até o fim da Monarquia.

A Condessa de Barral permaneceu 9 anos na corte do Rio de Janeiro e exerceu sobre D. Pedro II um fascínio como nenhuma outra mulher. Ela foi sua maior confidente até o fim da vida e, quem mais sofreu com isso, foi a Imperatriz Teresa Cristina que a detestava, mas conformada, dissimulou seus sentimentos fazendo vistas grossas à obvia paixão do marido.

 

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([1]) HOLANDA, Sérgio Buarque de. “História Geral da Civilização Brasileira”, vol. 5, pp. 16-17

([2]) CARVALHO, José Murilo. “D. Pedro II”, pp. 29-30

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