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sábado, junho 19, 2021
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Caso Henry: MP pede quebra de sigilo de Jairinho citando apuração de VEJA

O Ministério Público do Rio de Janeiro modificou a denúncia principal contra o vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (sem partido), de 43 anos, para pedir a quebra dos sigilos bancário e fiscal do parlamentar e de Monique Medeiros, de 33 anos, ambos acusados por homicídio triplamente qualificado e tortura do menino Henry Borel, de 4 anos. Eles são, respectivamente, padrasto e mãe da criança assassinada após uma sessão de espancamentos no apartamento em que os três viviam na Barra da Tijuca, na Zona Oeste da capital. Anexando reportagem de VEJA sobre as sugestivas manobras de ocultação do patrimônio do político, o aditamento feito nesta segunda-feira, 7, pede uma indenização por danos morais de 1,5 milhão de reais ao pai do garoto, Leniel Borel de Almeida, de 37 anos. A alteração da denúncia contra os réus foi formulada pelo promotor Fábio Vieira, da 2ª Promotoria de Justiça junto ao tribunal do júri no qual o casal será julgado. A intenção do MP do Rio é bloquear os bens relacionados ao político.

Em 7 de maio, VEJA revelou uma extensa investigação com base em registros de imóveis relacionados Jairinho. A reportagem se deparou com um esquema de transações que sugere manobras de ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro, inclusive com o uso de laranjas. Jairinho encaminhou à Justiça Eleitoral, na última votação, um total de bens avaliados em 313 705,42 reais, assim listados: um pequeno apartamento na Barra (que, estranhamente, já havia sido vendido), um carro, um consórcio de uma moto e parcos investimentos. Ao contrário do que foi declarado, no entanto, VEJA levantou dezessete imóveis ligados ao vereador, entre eles uma mansão em Mangaratiba, na Costa Verde do Rio, uma cobertura dúplex recém-vendida, uma sala comercial, um flat de frente para o mar e vários terrenos que somam, conservadoramente, 8 milhões de reais.

O menino Henry Borel, torturado e assassinado em 8 de marçoArquivo Pessoal/VEJA

“Conforme destacado em matérias jornalísticas, o acusado vem ocultando seu patrimônio, por meio de ‘laranjas’, o que prejudica a futura atuação processual, já que no caso em tela há possibilidade, também, de atacar esses bens escondidos. Nota-se que há clara indicação que o acusado estaria colocando, premeditadamente, obstáculos para que seus bens não sejam atingidos”, escreveu Vieira no aditamento da denúncia. O promotor acrescentou que o pedido tem a intenção de “coibir que novos atos sejam praticados pelo acusado com a intenção de dilapidar e ocultar seu patrimônio”.

O esquema de Jairinho envolvia uma empresa chamada Plus Consultoria e Participações, da qual ele foi sócio por um tempo, até repassar sua parte à irmã, Thalita Santos. Na sociedade figura o ex-cunhado dele, o advogado Daniel de Carvalho. Thalita é fisioterapeuta e mora até hoje na casa da família em Bangu, na Zona Oeste do Rio. Carvalho, casado com uma irmã da ex-mulher do parlamentar, Ana Carolina Netto, é figura de confiança do clã familiar: trabalhou para o deputado estadual Coronel Jairo, pai de Jairinho, atuou como um dos coordenadores da campanha do vereador em 2020 e foi nomeado asses­sor I de seu gabinete. O parlamentar saiu da sociedade da Plus, mas não perdeu o vínculo. A reportagem teve acesso a uma procuração de 2013 em que a irmã e o ex-cunhado lhe dão plenos direitos de “assinar como se o próprio sócio fosse” e “comprar, vender, ceder, hipotecar, permutar” imóveis da empresa. “Trata-se de uma prática clássica de se ocultar patrimônio da Justiça”, diz o criminalista Augusto de Arru­da Botelho, defensor de réus graúdos da Operação Lava-Jato.

A mansão de Mangaratiba foi posta à venda por 2,4 milhões de reais logo após a morte de Henry, conforme VEJA mostrou no mês passado. A casa seguia sendo usada normalmente pelo vereador e seus parentes. Justamente ali Monique foi apresentada à família dele no último réveillon. No mesmo endereço, no ano passado, Débora Mello Saraiva — outra namorada do político que teve um filho torturado por ele — foi espancada e mordida na cabeça. Nesse dia, como declarou à polícia, Thalita estava na propriedade. A fisioterapeuta, aliás, surge como sócia, além da empresa Plus, de mais cinco firmas ativas — outra de imóveis, que também divide com o assessor Carvalho, duas de odontologia, com parentes de seu pai, e duas de vestuário, em parceria com mais um familiar. Mas a Plus, com capital social de 1,2 milhão de reais, é a joia da coroa, tendo registrados ainda em seu nome duas propriedades em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, um flat à beira-mar no Recreio dos Bandeirantes e terrenos em Guaratiba, Zona Oeste do Rio, e nos municípios de Itaboraí e Seropédica.

Já o apartamento de quatro quartos no Majestic, onde Henry foi espancado e morto, está em nome de Claudio da Silva Castro, morador do mesmo bairro de Bangu onde a família de Jairinho tem sua base política. Procurado por VEJA, Castro limitou-se a dizer: “Não temos amizade”. Tampouco mostrou algum contrato de locação do imóvel.

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