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sexta-feira, abril 23, 2021
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Dormindo com o inimigo: a violência psicológica contra mulheres

Yasmin Brunet, 32, modelo –Reprodução/Instagram

Yasmin Brunet, 32, modelo
“Vivi uma série de relacionamentos abusivos. Achava que amor era aquilo. Era tão manipulada que não fazia nada sem consultá-los. Não tinha confiança em mim mesma. Estava certa de que o problema era eu. Foi doloroso aceitar que precisava de ajuda para sair dessa prisão. Hoje me sinto livre.”

No princípio são só flores, demonstrações de afeto e juras de amor eterno. Com o tempo, entra o ciúme travestido de cuidado, que por sua vez dá lugar às ofensas, humilhações e tentativas de controlar cada passo. À briga, inevitável, seguem o pedido de desculpas e a promessa de que não vai acontecer de novo. Aí começa tudo outra vez. Eis o ciclo do relacionamento abusivo, um foco de sofrimento que permaneceu escondido sob a fachada de que vida a dois é assim mesmo, até que o problema passou a emergir dentro e fora das redes sociais, impulsionado por depoimentos de celebridades que experimentaram o calvário, como a cantora Anitta, a atriz Cleo Pires, a apresentadora Adriane Galisteu e a modelo Yasmin Brunet. “Sofri toda sorte de agressão e até hoje faço terapia para lidar com os traumas que os namorados tóxicos me causaram. Cheguei a ouvir de um deles que merecia um prêmio por me aturar. Achava que amor era isso”, desabafa Yasmin, 32 anos, que diz ter sido vítima de uma série de relações do tipo e demorado anos para distinguir amor de abuso.

arte violência contra mulher

Por se tratar de uma violência antes de tudo psicológica, calcada em expressões e atitudes vistas como “normais”, a mulher — de longe a parte mais afetada por abusos dessa natureza — em geral custa a reagir. O agressor insiste em que faz o que faz porque gosta dela, criando uma armadilha na qual os dois ficam presos — ele, maltratando e desdenhando, ela sofrendo e esperando passar. “As mulheres precisam ter consciência de que o primeiro indício de um relacionamento abusivo é o xingamento, não o tapa na cara”, afirma Jamila Jorge Ferrari, coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo. “Ligar o tempo todo para o trabalho, aparecer na porta da faculdade sem avisar e se queixar da maquiagem não são crimes, mas formas de minar a segurança e manipular a parceira.”

Julia Konrad, 30, atriz –Reprodução/Instagram

Julia Konrad, 30, atriz
“Por pouco mais de três anos, minha relação se resumiu a um ciclo de declarações de amor seguidas de brigas e tentativas de me controlar. Ele pedia desculpas, mas logo as agressões voltavam. Eu acreditava que estava me protegendo. Só consegui me libertar com terapia e a ajuda de amigos.”

VEJA teve acesso a um levantamento feito pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que aponta 246 240 registros de violência psicológica no Brasil no ano passado — em 2019, quando a métrica era menos precisa, foram 3 887 violações. Entram nesse rol impressionante as denúncias de ameaça, assédio moral, constrangimento, exposição e tortura psíquica feitas nos canais oficiais da pasta que indicam o algoz, seja namorado, marido ou companheiro. O total deve ser bem maior, levando-se em conta a vasta subnotificação e os relatos registrados no ministério que não revelam o autor da agressão. Mesmo assim, o fato de tantas terem criado coragem de se manifestar sinaliza que elas estão, cada vez mais, abrindo os olhos para uma situação em que a mistura de sentimentos dificulta a identificação dos sinais. “Nesse tipo de relação, o agressor manifesta afeto, demonstra fragilidade, e a vítima sente culpa quando pensa em terminar ou denunciar”, alerta a psicanalista Vera Iaconelli.

Indício numérico de que violências como essas saem das sombras é o aumento das buscas da expressão “relacionamento abusivo” no Google: 1 000% nos últi­mos cinco anos, 300% só em 2020, com picos de 500% cada vez que uma mulher famosa fala publicamente sobre o tema. Os testemunhos são consequência direta da explosão, em 2015, de movimentos como Meu Primeiro Assédio e MeToo, que abriram a comporta dos segredos represados e promoveram, nas redes sociais, em documentários, reportagens e programas de TV, uma enxurrada de denúncias de assédio sexual e violência física contra mulheres, tanto conhecidas quanto anônimas.

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Bárbara Dalpont, 36, empresária –Jefferson Coppola/VEJA

Bárbara Dalpont, 36, empresária
“Em 2012, eu me casei com o homem que achava ser meu par ideal, mas que logo passou a me xingar e me ameaçar de morte. Quando pedi a separação, sete anos depois, ele começou a me seguir na internet e me difamar para amigos e familiares. Só tive paz com uma medida protetiva que o proíbe de entrar em contato comigo.”

Daí para a exposição de casos de abuso psicológico foi um pulo. Só nos últimos quatro meses, três cantoras, Anitta, Billie Eilish e Demi Lovato, revelaram em documentários auto­bio­grá­ficos terem vivido relacionamentos abusivos. Em um caso de grande repercussão, a influenciadora digital Duda Reis, 19 anos, anunciou em janeiro o término do noivado com o funkeiro Nego do Borel, 28 anos, e foi à polícia prestar queixa por lesão corporal psicológica e física, injúria, ameaça e estupro de vulnerável. “Vivia em um ciclo vicioso. Já até esperava as brigas, porque sabia que depois ele voltaria a me tratar bem, mesmo que por poucos dias”, conta Duda. Segundo ela, as pessoas em volta não se davam conta dos abusos. “Quando ele me humilhava, elas viam aquilo como brincadeira e ignoravam a minha dor”, afirma.

Ainda que categorizar esse tipo de relação abusiva não seja simples, especialistas apontam padrões de comportamento que se repetem em todas elas. A violência está sempre presente, seja psicológica, física, financeira (o controle do caixa conjugal é dele) ou tecnológica — a insistência em ter a senha dos aplicativos e bisbilhotar curtidas em fotos alheias são algumas das formas de o agressor exercer dominação no ambiente virtual. Outros fatores a se estar atento são aqueles que o passar do tempo agrava: a frequência dos abusos, o escalonamento das agressões e o nível de sofrimento causado. Casada durante sete anos e divorciada há dois, a empresária gaúcha Bárbara Dalpont, 36 anos, mesmo depois de separada precisou ir à Justiça para se desvencilhar do ex-­mari­do: em março do ano passado, ela ganhou uma medida protetiva de urgência após ser perseguida intensivamente por ele na internet. “Achei que com a separação teria a paz de volta, mas minha vida virou um verdadeiro inferno. Se durante nosso relacionamento ele me desmoralizava, com a separação passou a me perturbar por telefone e a entrar em contato com todos os homens que comentavam as minhas fotos”, relata Bárbara, que teve de mudar de cidade três vezes e hoje processa o ex por ameaça, perseguição, calúnia e difamação.

Duda Reis, 19, influencer –Reprodução/Instagram

Duda Reis, 19, influencer
“Tinha 17 anos quando nos conhecemos. Com o tempo, os galanteios deram lugar ao ciúme excessivo. Começou a controlar minhas roupas e até minhas amizades. Ele me fazia crer que eu tinha culpa pelas oscilações de humor dele. Era muito inexperiente e me deixei levar.”

O Brasil é o país que mais pesquisa no Google sobre o assunto, seguido de Portugal, Jamaica, África do Sul e Estados Unidos. Segundo a fundação americana One Love, que oferece cursos on-line para ensinar as pessoas a reconhecer problemas e diferenciar as relações saudáveis das doentias — mais de 100 milhões de alunos já se matricularam neles —, as mulheres entre 16 e 24 anos são as que mais sofrem violência psicológica por parte dos parceiros. Outro estudo mostra que, entre as vítimas, muitas nem sequer enxergam os maus-tratos como comportamento abusivo, e, além de sentirem vergonha e medo de denunciar, precisam encarar a desconfiança geral que costuma acompanhar suas queixas. “Para esse grupo de mulheres, a violência psicológica é uma forma de lesão corporal, em razão do dano à saúde psíquica”, dispara Izabella Borges, advogada de Duda e Bárbara, que contratou uma equipe de psicólogos para acompanhar os casos e comprovar que as alterações psíquicas sofridas pelas clientes foram causadas pelos agressores.

Durante séculos as mulheres foram acostumadas a depender do marido e a ser controladas por ele, um comportamento que, como mostra a atual exposição de relações abusivas, deixou raízes mesmo após a primeira, a segunda e a terceira onda de feminismo no planeta. “Na minha cabeça não era abuso, era desentendimento de casal. Tinha certeza que a culpa de ele me tratar feito lixo era minha”, relata a atriz Julia Konrad, 30 anos, que terminou um relacionamento abusivo depois de três anos e meio, resumindo o sentimento da imensa maioria. “É preciso superar a questão cultural”, alerta a antropóloga Mirian Goldenberg. “No Brasil, ter um relacionamento é considerado um valor, mesmo que ele seja problemático e seja fonte de sofrimento.” Os testemunhos e as denúncias dos últimos tempos são a prova de que, ao contrário do que prega o ditado, ruim com ele, melhor sem ele.

Publicado em VEJA de 7 de abril de 2021, edição nº 2732

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