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terça-feira, março 2, 2021
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Luta contra fake news: os cientistas que viraram celebridades na pandemia

“Meu trabalho sempre foi muito combativo”, diz a microbiologista Natalia Pasternak ao recordar os caminhos que pautaram sua atuação no campo científico. Em 2018, Natalia tomou a decisão de fundar o Instituto Questão de Ciência (IQC) para defender o uso de evidências científicas na formulação de políticas públicas. “Eu sempre procurei dar ferramentas para as pessoas fazerem escolhas melhores no dia a dia. Vou ou não vou vacinar meus filhos? Quais produtos eu compro no mercado? Como podemos influenciar decisões dos governos? Isso eu sempre fiz”, afirma.

Por mais que estivesse acostumada a derrubar teses falsas ou malfeitas, Natalia não estava preparada para a guerra de narrativas que teria início com a pandemia do novo coronavírus. Foi em março do ano passado, quando o médico francês Didier Raoult publicou um artigo defendendo o uso de cloroquina para tratar a Covid-19, que a cientista julgou ser necessário mudar os métodos com os quais trabalhava. Resolveu ativar de vez o perfil que mantinha no Twitter para alertar as pessoas sobre as campanhas de desinformação que defendiam tratamentos precoces para a doença. Está provado cientificamente que a cloroquina não possui eficácia contra a Covid-19.

“Antes disso, eu nunca tive a necessidade de combater informações falsas diariamente”, diz ela. “Sempre usávamos revistas, eventos ou artigos em jornais para desmentir a ciência picareta, mas os truques estavam todos nas redes sociais quando as desinformações e mentiras sobre a pandemia tiveram início. Eu sabia que aquilo iria escalar e que traria consequências desastrosas para o país”, afirma. Em março de 2020, o perfil de Natalia no Twitter havia registrado 17 postagens. A pedido de VEJA, a consultoria Quaest mediu o engajamento do perfil da cientista ao longo de janeiro deste ano. Passados dez meses do início da pandemia, a cientista registrou uma média de 384 publicações em sua página. Os textos, que antes atraíam por volta de 2.300 curtidas, foram capazes de atingir mais de 165 mil pessoas no mês passado.

Natalia é um dos vários exemplos de cientistas que se transformaram em “influenciadores digitais” durante a pandemia. São profissionais das mais variadas áreas da ciência e da medicina que se viram obrigados a aprender a usar as redes sociais para fornecer informações confiáveis e acessíveis às pessoas que ainda têm dúvidas sobre como se proteger da Covid-19.

No Brasil, o trabalho dos cientistas foi especialmente árduo, já que o presidente Jair Bolsonaro e o Ministério da Saúde, sob o comando do general Eduardo Pazuello, incentivaram por meses o uso de remédios ineficazes contra a Covid-19. Bolsonaro também adotou postura negacionista em relação à gravidade do vírus, fez campanha contra as medidas sanitárias de controle da pandemia e incentivou os brasileiros a não se vacinarem. A ausência de uma estratégia coordenada a partir do governo federal para combater a pandemia já resultou na morte de mais de 240.000 pessoas.

“Isso agravou demais a situação. Desbancar esse tipo de informação falsa e que partiu do governo federal ou do Ministério da Saúde dá um trabalho mil vezes maior e consome muito mais tempo e energia do que simplesmente disseminar uma informação útil. Não consigo imaginar o tempo que eu e outros colegas gastamos para rebater mentiras prejudiciais e perigosas. Poderíamos ter usado esse mesmo tempo para espalhar informações que realmente iriam ajudar a população na lutra contra o vírus”, diz a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, em Washington. Desde o início da pandemia, Denise registrou um aumento de 15% nos seguidores do seu Twitter. Em janeiro, ela fez 366 postagens na rede social, contra 19 em março do ano passado. Seus textos foram capazes de mobilizar mais de 80.000 pessoas na rede social.

Denise percebeu o poder que a internet teria no combate à Covid-19 quando fez uma postagem para alertar as pessoas sobre a estratégia de “imunidade de rebanho”, quando há o controle de uma doença porque parte significativa de uma população se contaminou com o vírus antes de ficar imune. A epidemiologista, que tinha dificuldades até para mexer em funções básicas do Twitter, também teve de aprender a se comunicar e a explicar conceitos científicos para pessoas que nunca tiveram contato com esse universo. “Eu publiquei 21 artigos científicos em 2020. Nenhum deles foi mais difícil de escrever do que as minhas postagens no Twitter. Sempre escrevi numa linguagem técnica, então tive que aprender às pressas como me comunicar com as pessoas”, diz. Natalia Pasternak concorda com a colega e acrescenta: “Não se pode partir do pressuposto de que qualquer coisa é complicada demais. Se você não conseguir explicar o seu trabalho para a sua avó, então você não entendeu o seu trabalho. As pessoas têm não só a capacidade, mas o direito de entender quais são os processos científicos.”

O campeão de engajamento no levantamento feito pela Quaest foi o biólogo Atila Iamarino, que antes da pandemia foi um dos primeiros cientistas a utilizar as redes sociais para aproximar os leigos da ciência. No período pesquisado, Iamarino obteve um engajamento superior a 1,7 milhão de pessoas. O epidemiologista Otavio Ranzani também apresenta números significativos. Ele aumentou sua rede de seguidores em 16% e saltou de 11 para 610 postagens em seu perfil, contabilizando um engajamento superior a 80.000 pessoas. Já a divulgadora científica Luiza Caires, editora de Ciências do jornal da Universidade de São Paulo (USP), conseguiu mobilizar mais de 250.000 pessoas com cerca de mil postagens feitas em janeiro. São números expressivos, mas que não significam que a batalha pela verdade esteja ganha na pandemia.

“Estamos longe de uma vitória. A internet é um terreno muito árido. Tenho vários colegas que foram atacados e sofreram ameaças. Mas é nosso dever como profissional continuar trabalhando para proteger as pessoas de informações falsas” afirmou Denise Garrett.

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