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domingo, abril 18, 2021
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País na defensiva

O Brasil vem há dois anos se defendendo do presidente da República. A despeito do resultado negativo de suas investidas na avaliação popular sobre a qualidade do governo, ele não esmorece. Jair Bolsonaro mesmo admite que atua na contramão do desejo da maior parte dos brasileiros quando desafia o país a convencê-lo a mudar de comportamento: “Devo mudar meu discurso, me tornar mais maleável, devo ceder? Fazer igual à grande maioria? Se me convencerem, faço, mas não me convenceram ainda”.

Lançou esse repto a propósito da cobrança por medidas mais severas para o combate à pandemia, confessando que está em posição de minoria. Ele adianta ao mesmo tempo que por ora pouco se importa com isso e não vai mudar. Portanto, não há mais razão para aquelas dúvidas sobre se recuos e adaptações de discurso têm efeito fugaz ou duradouro.

O jogo, então, está assim jogado: Bolsonaro no ataque, o Brasil na defensiva. Não me refiro aqui ao universo da oratória, da troca de insultos pertencente ao campo do exercício do ódio improdutivo que propicia graça, anima a plateia, mobiliza emoções, mas não move moinhos de maneira efetiva. Em outras palavras, cultiva ilusões que levam a coisa alguma. O elenco de impropérios não sensibiliza quem tem neles seu ambiente mais familiar (lato e stricto sensu).

Falo da pandemia, mas também da ofensiva do presidente contra diversos avanços civilizatórios, os quais o Brasil se viu obrigado a defender quando já os considerava consolidados. Aqui vamos dos marcos legais em diversos setores como o de armamentos, meio ambiente, cultura, educação, ao extemporâneo questionamento sobre as normas da democracia consagradas no papel pela Constituição e na prática pela adesão da sociedade à realidade pós-ditadura.

De tal cenário, emerge a questão: a regra imposta pelo presidente mediante a qual ele ataca e o país perde tempo e energia na defesa é imutável? Não necessariamente. Indo além para parafrasear Bolsonaro, talvez tenha chegado (ou até passado) o momento de perguntar se sociedade e instituições devem mudar, tornar-se menos maleáveis, mais intransigentes? Repudiá-lo com veemência semelhante à da maioria de 54% que na última pesquisa Datafolha consideram o governo ruim ou péssimo?

“O Brasil pode escolher se mantém ou inverte a regra de ataque e defesa imposta por Bolsonaro”

Legalmente nada impede que a dinâmica de defesa e ataque se inverta e os contendores troquem de lugar. O instrumento mais contundente seria a abertura de um processo de impedimento de continuidade do mandato contra o presidente. Realística e politicamente, contudo, há a resistência do Congresso e a posição contrária de 50% (46% a favor) da população registrada pelo Datafolha.

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É um quadro visto como favorável pelo presidente. O índice de 30% dos que consideram ótimo ou bom incentiva Bolsonaro a falar na adoção de estado de sítio, a evocar suposta atuação das Forças Armadas em prol das investidas dele, a dizer que há gente “esticando a corda” e a lançar ameaças de adotar “medidas mais duras” contra a normalidade institucional.

Do ponto de vista da sociedade, não há o que temer. Se alguém precisa ter medo é o presidente da República, cuja permanência no poder pode começar a sofrer forte questionamento por parte de setores até então refratários à hipótese de impedimento ou de abertura de processos de investigação nos âmbitos parlamentar (CPI) e criminal.

O presidente mesmo contrata esse risco quando envereda por um caminho que o carrega a um ambiente que lhe é desfavorável, o da provocação antidemocrática. Com isso, põe o pé num terreno minado, chama um debate cujo desenrolar não tem chance de chegar a bom termo para ele. Quebra um tabu e transfere a reação do campo da retórica para a arena da materialidade.

Quando Bolsonaro conclama as instituições à ruptura, dificilmente será atendido. O Congresso não irá ao estado de sítio, o Judiciário tampouco o acolherá, os militares não embarcarão em aventuras e o mundo do dinheiro deixou claro o que pensa sobre seu modo de agir, na carta recente dos 1 500 economistas, banqueiros e empresários.

Na pior das hipóteses (para ele), conseguirá convencer a maioria de romper o contrato eleitoral de 2018. Na melhor, ficará falando sozinho em sua lógica de caráter regressivo que objetivamente só interessa a um nicho e não encontra identificação no eleitorado de maneira substancial de forma a lhe dar condições competitivas de pleitear um novo mandato.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 31 de março de 2021, edição nº 2731

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