21.6 C
Brasil
quarta-feira, março 3, 2021
Início Política As Eleições de 2022

As Eleições de 2022

As eleições de 2020 mostraram a força dos partidos de centro, a pulverização da esquerda e apontaram importantes direções para o futuro. No artigo abaixo, o cientista político Lúcio Rennó faz uma análise do cenário criado após as eleições municipais, ressalta que Bolsonaro não saiu tão enfraquecido como parece, mas afirma que o presidente terá que mudar a estratégia usada em 2018 se quiser uma reeleição.

As Eleições de 2022

* Por Lúcio Rennó

Muito foi dito sobre os resultados das eleições de 2020 e suas implicações para 2022. Primeiro, mudou a agenda: sai o ódio, entra a solidariedade. A pandemia, segundo essa visão, mudou a política, se não almas. Venceram propostas que apostaram em temas sociais. Em segundo lugar, a eleição sinaliza a vitória da moderação; apostas radicais foram derrotadas. Terceiro, 2020 representa a volta dos que não foram: o Centrão, incluindo nele o DEM, ganhou. Em decorrência desses pontos o saldo é: Bolsonaro perdeu, celebraram alguns. À exceção da vitória clara de alguns partidos de centro, as demais afirmações são meras apostas ou desejos, para os quais não há evidência empírica clara com base em dados eleitorais ou pesquisas de opinião pública.

Ao contrário do que pensam muitos, o Brasil que sai das urnas em 2022 é fortemente favorável a Bolsonaro. Ganharam os partidos de sua base de apoio no Congresso: PSD, PP e Republicanos. Na verdade, qualquer um destes, mas principalmente os dois últimos, adorariam ter Bolsonaro em seus quadros, algo que ainda pode ocorrer. Seria uma oportunidade única de assumirem influência decisiva no centro do Poder Executivo, algo que nunca tiveram. Os efeitos das eleições municipais são sentidos, na verdade, muito mais fortemente no Congresso do que no Planalto. Tem maior influência nas eleições legislativas de 2022, principalmente para Deputado Federal, do que para Presidente da República. Influenciam também algo bem mais próximo: a disputa pela Presidência da Câmara e Senado. Partidos revigorados pelas urnas, com controle das máquinas políticas locais, tão importantes para Deputados, tem mais poder de barganha nas decisões imediatas do Congresso. Certamente, o cenário atual é favorável ao Centrão na disputa pela presidência da Casa. Podemos ter, então, o mesmo grupo controlando legislativo e executivo, reduzindo ruídos, fundamental para solidificar apoios em 2022.

Como se não bastasse, a oposição ao atual governo se enfraqueceu. MDB, PSDB e a esquerda ou enxugaram ou ficaram como estavam. Pior, acirraram-se discordâncias internas nesses campos, colocando ainda mais dúvidas sobre uma possível orquestração ampla antibolsonarista, um grupo muito heterogêneo e desencontrado para se coordenar. Muito provavelmente haverá pulverização na esquerda, aumentando o risco de fracasso eleitoral em 2022, especialmente se houver um único ou poucos candidatos moderados de direita para enfrentar a máquina bolsonarista em franca construção.

Continua após a publicidade

Sobre 2022 temos uma única certeza: não será igual a 2018. Bolsonaro agora é elite, virou vidraça. O discurso crítico ao sistema não convencerá mais. As crises não poderão ser jogadas no colo dos outros. Ademais, as mudanças institucionais, novidade em 2018, já estarão assimiladas nas estratégias dos partidos políticos e o uso das mídias sociais não é mais novidade. Na verdade, o que vimos em 2020, e essa talvez seja a principal lição dessa eleição, é que só a atuação na internet não basta para ganhar eleições. Estruturas políticas, como controle sobre prefeituras, partidos, financiamento de campanha, televisão, emendas orçamentárias e orçamentos públicos muito provavelmente voltarão a ser bens preciosos para o sucesso de uma campanha presidencial, principalmente em um previsto cenário de escassez econômica nos próximos anos. A fórmula mágica de Bolsonaro, eleito sem recursos, provavelmente será um evento historicamente demarcado e restrito a 2018.

Por fim, não há nenhuma evidência crível de uma moderação na polarização política no Brasil. Dados de pesquisa “A Cara da Democracia” mostram, na verdade, que temas relativos à pandemia como distanciamento social, críticas ao SUS, negacionismo são fortemente encampados por bolsonaristas e rejeitados por seus adversários – petistas, lulistas e antibolsonaristas.  A pesquisa “Brasileiros resistem a vacinas da China e da Rússia” realizado pelo Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública (CPS/UnB) mostra rejeição à vacina entre bolsonaristas e apoio nos demais grupos. Ou seja, a pandemia foi politizada e polarizada. Isso confirma outras divergências sobre temas políticos que eu constatei em pesquisa sobre voto em Bolsonaro nas eleições de 2018 publicado no periódico Latin American Politics and Society.

O bolsonarismo é uma convergência conservadora sobre temas – combate ao crime e corrupção, resistência a políticas sociais, principalmente as baseadas em critérios raciais, oposição a políticas de gênero, liberalismo econômico – que agora se manifesta em assuntos correntes, como a pandemia. Dependendo da forma de mensuração, o bolsonarismo varia entre 18 e 25% da população com grande simpatia por Bolsonaro. Quando consideramos distinta formas de polarização – bolsonaristas e antibolsonaristas, bolsonaristas e lulistas, bolsonaristas e petista, petistas e antipetistas – essas distintas dimensões da polarização quando incluem Bolsonaro afetam entre 30 e 50% da população brasileira.

Deve ficar claro que há diferentes intensidades de afeição e apoio aos distintos polos do espectro político brasileiro. Também é fundamental destacar que somos uma maioria sem afiliações políticas definidas – até 50% da população não se vincula a nenhum lado. Na verdade, quando comparamos apoio a Bolsonaro e Lula, 13% da população dá a mesma nota para ambos – não os diferencia. Pensando em um parâmetro comparativo, nos Estados Unidos, segundo o Instituto Gallup, 38% dos eleitores não se identificam como Democratas ou Republicanos; um pouco menos que aqui, mas não muito. Pensando que nosso sistema eleitoral tem pouco mais de 35 anos, considerando a reforma de 1994 como ponto de partida, e que o norte-americano tem mais de 200, nossa polarização, apesar de menor em volume e intensidade, não é desprezível.

Bolsonaro alterou os eixos das clivagens políticas vigentes anteriormente, iniciando um novo ciclo em nossa política nacional. Verdade que por ser vidraça, a avaliação de seu governo terá impacto em seu sucesso eleitoral futuro – mas os alinhamentos temáticos/ideológicos não desaparecerão. O que será preciso, se Bolsonaro quiser vencer novamente, é fortalecer a polarização com base em estruturas e recursos políticos – partidos, cargos, orçamentos. Puro voluntarismo e antipetismo não serão mais suficientes para mobilizar os não alinhados.

* Lúcio Rennó é doutor em ciência política pela Universidade de Pittsburg e professor da Universidade de Brasília (UnB) 

Continua após a publicidade

- Advertisment -

Ultimas Notícias

STJ absolve desembargadora que insultou Marielle Franco

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) absolveu a desembargadora Marília de Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio, da acusação de calúnia por ter...

Pronunciamento de Bolsonaro é novamente adiado

Apesar de integrantes do governo e o próprio presidente Jair Bolsonaro terem passado o dia falando do pronunciamento em rede nacional, um importante auxiliar...

Corrupção na pandemia: promotores acham R$ 300 mil com investigado no DF

Promotores do Distrito Federal encontraram quase 300.000 reais em dinheiro vivo na casa de um dos alvos da Operação Falso Negativo, que investiga um...

Prorrogação da outorga da BR-040 anima concessionárias de rodovias

A liminar da Justiça Federal que prorrogou a concessão da BR-040, administrada pela Concer, por conta dos desequilíbrios econômico-financeiros causados pela pandemia de Covid-19...