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quinta-feira, março 4, 2021
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Jacinda e Tabaré (por Marcos Magalhães)

Logo após ser escolhido por 115 cardeais, há sete anos, o argentino Jorge Mario Bergoglio fez piada de si mesmo ao dizer que os eleitores haviam ido buscar um novo Papa no fim do mundo. Mais precisamente, a 11 mil quilômetros de Roma.

Agora, os leitores do jornal londrino Financial Times foram ainda mais longe. Encontraram a 18 mil quilômetros de distância – em latitude semelhante à de Buenos Aires, mas do outro lado do planeta – aquela que encabeça a lista das mulheres mais influentes do mundo de 2020: a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern.

Os editores da FT Weekend Magazine receberam centenas de sugestões de leitores espalhados pelo mundo. Estão na lista nomes como os de Ozlem Tureci, cientista da BioNTech responsável pela criação de uma das mais promissoras vacinas contra a Covid 19, e a vice-presidente eleita dos Estados Unidos, Kamala Harris.

Em favor de Jacinda, os leitores lembraram a capacidade da primeira-ministra em limitar drasticamente o número de casos da pandemia em seu país, calando os negacionistas e, de maneira ainda mais importante, deixando de lado a arrogância de outras lideranças.

“O mundo está começando a se dar conta de que empatia é uma qualidade necessária para a liderança”, ressaltou um leitor (ou leitora) que se identificou pelas iniciais SB.

Empatia é qualidade rara entre as atuais lideranças mundiais. Assim como compaixão e competência, outras características atribuídas a Jacinda pelo próprio Financial Times em editorial publicado em 20 de outubro, logo após as eleições que deram a ela mais um mandato à frente do governo da Nova Zelândia.

Atentos

Enquanto aguardam as vacinas que poderão nos próximos meses reverter a nova curva de crescimento da pandemia, cidadãos e cidadãs de todo o mundo observam com atenção o comportamento de seus governantes diante do maior desafio sanitário das últimas décadas.

Os negacionistas começaram a perder terreno com a derrota do presidente Donald Trump nas eleições de novembro, nos Estados Unidos. Agora buscam espaço líderes performáticos como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, que promete iniciar a vacinação ainda nesta semana, e o presidente russo Vladimir Putin, que chamou de Sputnik a vacina de um país em busca de glórias perdidas.

Mas o que levou Jacinda a ser uma mulher tão admirada, a ponto de encabeçar a lista da revista de final de semana do Financial Times? Segundo critérios na moda em Brasília, ela deveria fazer vista grossa para a doença e estimular a rápida volta ao trabalho. Afinal, nenhuma gripezinha deveria prejudicar a retomada da economia.

Pois os cinco milhões de habitantes da Nova Zelândia tiveram que permanecer em casa durante quatro semanas logo após o surgimento dos primeiros casos. O país entrou em recessão, e a taxa de desemprego alcançou 20%.

A criação de um fundo para combater a pandemia elevou a dívida pública. E o governo manteve o rumo, apesar das dificuldades. A primeira-ministra e os integrantes de seu gabinete tiveram os salários reduzidos em 20% durante seis meses. Resultado: foram registrados até hoje apenas 2079 casos e 25 mortes, segundo informações do Ministério da Saúde neozelandês.

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“O lockdown implementado na Nova Zelândia foi marcante por seu rigor e por sua brevidade”, avaliou o cientista inglês Alexis Robert em artigo publicado na revista científica The Lancet, em outubro. “A experiência naquele país demonstra que o sucesso de intervenções não-farmacêuticas depende de reações rápidas das autoridades de saúde, eficientes sistemas de vigilância e estratégias de testes direcionados, assim como o rigor”, acrescentou.

A resposta veio nas urnas. No mesmo mês de outubro a primeira-ministra levou seu Partido Trabalhista à maior vitória em 70 anos. “Se a pandemia está destruindo algumas carreiras políticas, está ajudando outras – nenhuma mais do que a de Jacinda Ardern”, avaliou o Financial Times em seu editorial após as eleições.

Em seguida, Jacinda nomeou o gabinete mais diverso da história de seu país. Representantes do povo Maori agora contam com um quarto da equipe. Oito mulheres foram nomeadas ministras. O vice-primeiro-ministro é homossexual. E a nova ministra de Relações Exteriores, Nanaia Mahuta, é uma das representantes da etnia Maori.

Montevidéu

Ao mesmo tempo em que a revista do Financial Times mostrava a ascensão da jovem primeira-ministra, de apenas 40 anos, deixava a cena, a dez mil quilômetros, um líder com o dobro de sua idade, mas semelhante capacidade de unir ética e política.

Em Montevidéu, do outro lado do rio da Prata de onde Bergoglio partiu para se tornar o Papa Francisco, milhares de pessoas foram às ruas para chorar a morte do ex-presidente uruguaio Tabaré Vázquez, o primeiro socialista a conquistar o poder sem seu país após o fim da ditadura.

Em 1989 ele se elegeu prefeito de Montevidéu, inaugurando um ciclo de administrações de esquerda na capital do pequeno país de três milhões de habitantes que dura até hoje. Em 2005 tomou posse para o primeiro de seus dois mandatos – não consecutivos – de presidente da República.

Desde então, o percentual da população que vive na pobreza caiu de 39,9% para 7,9%. E mais da metade dos uruguaios tem uma vida considerada de classe média. O país conquistou uma estabilidade política e econômica que atualmente atrai milhares de argentinos em fuga de mais uma crise.

Tabaré foi um conciliador. Quando o novo presidente Luis Lacalle Pou, de centro-direita, tomou posse em março deste ano, ali estava ele para aplaudir o sucessor em praça pública. Uma cena difícil de imaginar em um mundo onde Donald Trump ameaça não comparecer à posse do presidente eleito Joe Biden, em janeiro.

E o que têm em comum Tabaré Vázquez e Jacinda Ardern? Bem mais do que sua filiação de centro-esquerda. Ambos levaram a compaixão e a ética ao exercício do poder. E exerceram a rara qualidade da gentileza, em um mundo repleto de crus antagonismos. Um se foi, a outra está apenas começando. Que sejam exemplos a novas gerações.

 

Marcos Magalhães escreve no Capital Político. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

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