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quarta-feira, fevereiro 24, 2021
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Lira sai na frente, mas tem muita água para rolar (por Helena Chagas)

Esperteza, quando é demais, vira bicho e come o dono, já diziam os antigos. Vitorioso com o veto do STF à reeleição de Rodrigo Maia, o deputado Arthur Lira (PP-AL) está indo com tanta sede ao pote da presidência da Câmara que pode acabar se dando mal. É lícito que o líder do Centrão venha procurando colegas de Casa e comandantes dos partidos, inclusive de oposição, para pedir votos. É normal até que negocie com eles cargos na Mesa, comando de comissões, aprovação e engavetamento de projetos. Isso faz parte do jogo. O que não deveria fazer são as manobras pesadas que já se desenvolvem nos bastidores.

Com vasta expertise nas barganhas do poder que vêm mantendo seu grupo bem alimentado ao longo de todos os governos das últimas décadas, Lira está levando o Planalto a se jogar de cabeça, corpo, cargos e emendas na disputa da Câmara – o que, seria repetitivo citar mais exemplos, não costuma ser bom para nenhum governo.

Mas Lira seduziu Jair Bolsonaro e seus filhos, sobretudo porque sua vitória consolidaria a derrota do desafeto Rodrigo Maia, um rival na política do Rio. Bolsonaro, sabe-se, não tem freios éticos e nem dramas de consciência no uso de recursos da máquina governamental a favor de seus interesses. Já se noticia que os articuladores do Planalto estão mandando os deputados procurarem o líder do Centrão para obter a liberação das verbas para emendas acertadas no PLN 30, que abriu crédito suplementar de R$ 6,1 bilhões aos ministérios. Partidos não estão alinhados ao bloco de Lira – e próximos de Maia – começam a reclamar.

Os aliados de Arthur Lira também pressionam Bolsonaro a antecipar as tratativas da inevitável reforma ministerial prevista para fevereiro, e parecem estar conseguindo. Voltam a circular informações de que serão oferecidas pastas a deputados como o pastor republicano Marcos Pereira, por exemplo, que tem uma candidatura articulada à presidência da Câmara e até ontem era do grupo de Maia. Para desistir, ele iria para a pasta da Indústria e Comércio, que seria desmembrada da Economia. Ministérios como Turismo, Cidadania e Direitos Humanos e da Mulher também estariam na roda.

Não há dúvidas de que, a cinquenta dias da eleição, Arthur Lira saiu na frente – já que os adversários não conseguiram sequer se aglutinar em torno de um nome. Mas muitas águas ainda irão rolar, e tudo indica que, se Rodrigo Maia, com DEM, PSDB e MDB, conseguir construir em torno da disputa uma narrativa na linha bolsonarismo x antibolsonarismo, seu candidato pode acabar levando a melhor. Fiel da balança com 130 votos, a oposição, por exemplo, não teria como formar ao lado do candidato de Bolsonaro. Até o Centrão pode se dividir à medida em que Lira se colar  cada vez mais ao presidente da República – o que parece inevitável.

Acima dos cargos e do uso da máquina, a vitória pode ser de quem conseguir levar 511 colegas a pensar no futuro, que deverá contrapor à tentativa de reeleição do presidente da República um candidato da centro-direita não bolsonarista de Maia, Doria e sua turma. Com exceção do PP, legenda de Lira e provável porto futuro de Bolsonaro, outros partidos terão, até fevereiro, tempo – e algumas pesquisas – para avaliar se entram ou não numa canoa furada.

 

Helena Chagas é jornalista 

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