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domingo, março 7, 2021
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Tempo perdido (por André Gustavo Stumpf)

Pouca gente conhece em Brasília o embaixador Daniel Osvaldo Scioli, 63 anos, empresário, desportista, que foi vice-presidente da Argentina entre 2003 e 2007 e governador da província de Buenos Aires entre 2007e 2015.

Ele disputou contra Maurício Macri a presidência de seu país. Perdeu, no segundo turno, por diferença pequena de votos. É o atual embaixador da Argentina no Brasil. Trabalha muito, tem perfil executivo e cultiva a discrição. Enfrentou tranquilo a notória desavença entre o presidente de seu país, Alberto Fernandez, e Jair Bolsonaro.

Cada um agrediu seu vizinho da maneira que pareceu mais ofensiva. Bolsonaro disse que os argentinos votaram errado. Fernandez foi até Curitiba e visitou Lula na Polícia Federal. O novo embaixador não deu muita atenção às desavenças. Começou a construir consensos.

Visitou pessoalmente todos os governadores do sul do país. Abriu contatos e aprofundou convergências. Depois viajou pelo nordeste brasileiro, para conversar com governadores e estabelecer relações específicas nas áreas de comércio e turismo.

Encontrou os caminhos para chegar ao gabinete do vice-presidente da República em dezembro do ano passado. Com o general Hamilton Mourão conversou sobre as possibilidades de os dois países desenvolverem ações comuns.

Quem gosta de retornar no tempo, vai lembrar que aquela volta ao mundo que Tancredo Neves fez logo após sua vitória no Colégio Eleitoral, em 1985, terminou em Buenos Aires. Naquela ocasião, o presidente eleito, que infelizmente não tomou posse, acertou com Raul Alfonsin as bases do acordo que veio a ser o primeiro passo no sentido da criação do Mercosul.

Há uma semana, a criatividade diplomática encontrou solução interessante para colocar frente a frente os presidentes Bolsonaro e Fernandez. Os dois comemoraram o 35º aniversário do encontro entre os presidentes José Sarney (sucessor de Tancredo Neves), e Raul Alfonsin. Os dois comemoraram a data (Sarney também participou do encontro) e prometeram investir em soluções para melhorar as relações entre os dois países.

Brasil e Argentina vivem situações financeiras críticas. Cada um com suas dificuldades. A Argentina deverá amargar a mais profunda queda do Produto Interno Bruto dos países do G-20. O Brasil luta contra a explosão da dívida, inflação incômoda e necessidade de crescer. Enfim, foi uma boa conversa entre dois antigos adversários. Fernandez, no dia seguinte ao encontro com Bolsonaro, conversou longamente com Biden.

Bolsonaro aproveitou a onda foi até Foz do Iguaçu para ver as obras da segunda ponte entre Brasil e Paraguai, na presença do presidente do país vizinho, Mario Abdo Benitez. As conversas também foram amenas, mesmo porque as obras estão sendo custeadas pelo lado brasileiro da hidrelétrica de Itaipu.

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A bandeira branca foi hasteada no sul do continente. Todos querem assinar o acordo com a União Europeia, mas cada um tem suas dificuldades. O principal problema, contudo, é a situação da Amazônia e a política de confronto do presidente com os europeus, que ameaça colocar tudo a perder. É preciso pacificar a área para retomar as negociações.

O presidente Bolsonaro está diante de sua nova realidade, depois que as eleições revelaram a extensão da sua derrota. Ele poderia ter convocado uma reunião ministerial e propor novas diretrizes para seus ministros. Preferiu pacificar seu entorno.

Para solucionar o debate sobre meio ambiente, o primeiro passo parece simples: demitir o ministro Ricardo Salles. Seria boa providência também mudar o responsável pelas relações exteriores. Se forem cumpridos estes atos rituais, o país poderá chegar mais perto do sonhado acordo com os países da Europa.

Na próxima semana, o Colégio Eleitoral nos Estados Unidos deverá anunciar o próximo presidente. O nome dele é Joe Biden. Está na hora de descer do delírio e reconhecer o fato. É também o momento de tentar recuperar o tempo perdido por fofocas, discussões estéreis e ameaças vazias. As eleições demonstraram que os extremos saíram de moda. Essencial é criar empregos, trabalhar para construir futuro melhor e buscar o desenvolvimento.

Há muito por fazer. Depois de dois anos, o presidente aprendeu que não governa sozinho. O envolvimento na disputa pelas presidências da Câmara e do Senado pode ser erro grave. Há os antecedentes de Severino Cavalcanti e Eduardo Cunha, que comprovam o risco. Ele precisa negociar, conversar e ouvir até opositores.

O contrário desta posição provoca isolamento e eleva a crise política. Saliva é o combustível da política, dizia o saudoso Ulysses Guimarães.

 

 

André Gustavo Stumpf escreve no Capital Político. Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou Jornalismo por uma década. Foi repórter e chefe da sucursal de Brasília da Veja, nos anos setenta. Participou do grupo que criou a Isto É, da qual foi chefe da sucursal de Brasília. Trabalhou nos dois jornais de Brasília, foi diretor da TV Brasília e diretor de Jornalismo do Diário de Pernambuco, no Recife. Durante a Constituinte de 88, foi coordenador de política do Jornal do Brasil. Em 1984, em Washington, Estados Unidos, obteve o título de Master em Políticas Públicas (Master of International Public Policy) com especialização política na América Latina, da School of Advanced International Studies (SAIS). Atualmente escreve no Correio Braziliense.

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