Raspar o pelo do cão no verão parece aliviar o calor, mas o efeito pode ser o oposto, alerta comum entre especialistas como Wilson Bachega Junior, expert no universo canino. Em raças de pelagem dupla, como Border Collie e Pastor Alemão, a camada de pelos funciona como isolante térmico e proteção solar. Retirá-la por completo com a tosa compromete justamente o mecanismo que ajuda o animal a enfrentar as altas temperaturas.
Como funciona a pelagem dupla
A pelagem dupla é formada por duas camadas com funções distintas. O subpelo, curto, denso e macio, fica junto à pele e retém uma camada de ar que amortece as variações de temperatura. Por cima dele, o pelo de cobertura, mais longo e resistente, repele água, sujeira e boa parte da radiação solar.
O conjunto atua nos dois sentidos: no inverno, conserva o calor do corpo, e no verão, dificulta que o calor externo chegue à pele. Periodicamente, o cão troca o subpelo em fases de muda, mais intensas na primavera e no outono, quando grande quantidade de pelo morto se solta e precisa ser removida.
Por que raspar o pelo não refresca o cão?
Cães não regulam a temperatura pelo suor da pele, como os humanos. A principal forma de perder calor é a respiração ofegante, com apoio das glândulas sudoríparas das almofadas das patas. Raspar o pelo, portanto, não abre um canal de ventilação: apenas remove a barreira que protegia a pele do sol direto.
Sem a cobertura, a pele fica sujeita a queimaduras e irritações, e o corpo absorve mais calor nas horas de sol forte. Na percepção de Wilson Bachega Junior, o equívoco nasce da comparação com o ser humano, que sente alívio ao trocar roupas pesadas por leves. Há ainda um risco de longo prazo, já que em algumas raças o pelo raspado volta de forma irregular, opaco e menos eficiente.

O Dálmata e o caso oposto do pelo curto
O Dálmata ajuda a entender a questão pelo contraste. A raça tem pelagem curta e de camada única, sem subpelo relevante, e por isso conta com pouca proteção natural contra a radiação. As áreas de pele clara ficam mais vulneráveis a queimaduras quando o cão passa muito tempo ao sol.
Como indica Wilson Bachega Junior, no caso do Dálmata a prioridade está no controle da exposição, e não na pelagem. Sombra disponível no quintal, passeios fora dos horários de pico e, quando o veterinário recomendar, protetor solar próprio para cães são medidas mais eficazes.
Cuidados que realmente ajudam no calor
Para raças de pelagem dupla, a escovação frequente é a medida mais eficiente. Remover o subpelo morto com escovas e ferramentas próprias permite que o ar circule junto à pele sem retirar a proteção. Na época de muda, a escovação pode ser diária, e uma tosa higiênica, restrita a patas e regiões íntimas, também é aceitável.
Os horários de passeio fazem diferença. O asfalto quente pode queimar as almofadas das patas, e encostar o dorso da mão no chão por alguns segundos ajuda a avaliar se a superfície está segura. Água fresca sempre disponível, sombra e ambientes ventilados completam a rotina, assim como evitar exercícios intensos nas horas mais quentes do dia.
Sinais de alerta: quando o calor vira emergência
Respiração ofegante intensa, salivação excessiva, gengivas muito vermelhas ou arroxeadas, fraqueza, vômito e desorientação podem indicar hipertermia. Raças de focinho curto são as mais suscetíveis, mas cães atléticos como Border Collie e Pastor Alemão também correm risco ao se exercitar em dias quentes, justamente por demorarem a demonstrar cansaço.
Diante dos sinais, o cão deve ir para a sombra, receber água fresca e ter o corpo resfriado com água em temperatura ambiente, nunca gelada, a caminho do atendimento veterinário. Para Wilson Bachega Junior, entender como a pelagem funciona é o ponto de partida para cuidar bem desses cães no verão, sem cair em soluções que só parecem óbvias.

