Uma startup paulistana fundada há menos de três anos acaba de triplicar seu valor de mercado e entrar no seleto grupo dos unicórnios brasileiros, desta vez com foco no setor jurídico. A Enter, que desenvolve inteligência artificial para automatizar processos judiciais do início ao fim, captou US$ 100 milhões em nova rodada de investimento e atingiu valuation de US$ 1,2 bilhão. Neste artigo, analisamos o que torna esse movimento relevante, por que o Brasil é o ambiente ideal para esse tipo de tecnologia e o que a ascensão da Enter revela sobre o futuro da advocacia corporativa.
O problema que a Enter resolve e por que ele é gigantesco
O Brasil é um dos países mais litigiosos do mundo. São dezenas de milhões de processos ativos no Judiciário, com crescimento constante nas áreas de direito do consumidor e trabalhista, exatamente onde o volume é mais asfixiante para as empresas. Grandes companhias que operam no país convivem cotidianamente com centenas ou milhares de ações simultâneas, o que exige estruturas jurídicas caras, lentas e propensas a erros operacionais.
É nesse cenário que a Enter se posiciona. A empresa criou uma camada de inteligência artificial que atua em cada etapa do processo judicial antes que um advogado humano precise intervir. Da elaboração da petição inicial ao cálculo do custo de um acordo, passando pela análise de provas e investigação de contextos específicos, como condições climáticas em ações por voos cancelados, a tecnologia conduz o fluxo com autonomia e precisão.
Clientes como Airbnb e Latam Airlines já utilizam a plataforma. A empresa afirma ter superado a marca de 300 mil casos tratados por ano, com cerca de 45 clientes ativos, incluindo instituições do setor bancário, um dos mais regulados e exigentes em termos de conformidade jurídica.
Por que investidores de peso apostaram nessa empresa
O Founders Fund, fundo de Peter Thiel, liderou a rodada com participação da Sequoia Capital e da Ribbit Capital, dois dos nomes mais respeitados do ecossistema global de venture capital. Não é coincidência que essas casas estejam apostando na Enter pelo segundo ciclo consecutivo.
O argumento central é claro: o Brasil oferece uma combinação rara de volume processual altíssimo, escassez de soluções tecnológicas eficientes e um mercado jurídico corporativo com capacidade real de pagar por automação. Para os investidores, isso representa uma oportunidade de construir uma posição dominante em um nicho com barreiras de entrada consideráveis.
A dificuldade técnica não está apenas na IA em si, mas na integração com fontes de dados jurídicos fragmentadas, sistemas legados dos tribunais e especificidades de cada vara e comarca. A Enter investe em engenheiros dedicados que trabalham lado a lado com os clientes para garantir essa integração, o que cria um vínculo operacional difícil de ser replicado por concorrentes entrantes.
O modelo de negócio e o sinal de maturidade
Um detalhe que merece atenção analítica é o modelo de receita da Enter. Cerca de 30% da remuneração da empresa está atrelada ao sucesso nas ações judiciais, enquanto o restante é cobrado antecipadamente pelo uso da tecnologia. Esse arranjo não é trivial: ele alinha os incentivos da empresa com os resultados reais dos clientes, o que exige confiança mútua e pressupõe um produto que efetivamente entrega.
Muitos casos são resolvidos em dois ou três meses, segundo os fundadores, o que acelera o ciclo de geração de valor e reduz a exposição financeira dos clientes. Para empresas que lidam com grandes volumes de ações de baixo valor unitário, como ocorre nas relações de consumo, essa velocidade representa economia concreta e previsibilidade orçamentária.
IA jurídica: um setor em ebulição global
A Enter não está sozinha nesse movimento. Globalmente, o segmento de legaltech com foco em inteligência artificial vive um momento de alta concentração de capital. Empresas americanas e europeias do setor já alcançaram valuations bilionários, sinalizando que os investidores enxergam o direito como uma das últimas grandes fronteiras da automação profissional.
O diferencial da Enter está justamente no recorte geográfico e setorial: enquanto competidores globais miram mercados anglófonos com lógicas jurídicas distintas, a startup paulistana domina as peculiaridades do direito brasileiro, um sistema de civil law com altíssima judicialização e regras processuais próprias. Essa especificidade é, ao mesmo tempo, sua maior barreira competitiva e seu maior ativo estratégico.
Com o novo capital, a empresa planeja expandir operações para outras regiões e ampliar o time para 150 profissionais. A ambição declarada é tornar-se uma referência monopolística em IA jurídica na América Latina, uma frase que poderia soar pretensiosa em outro contexto, mas que ganha peso diante dos números, dos investidores e de um mercado que ainda engatinha na adoção de tecnologia para o Judiciário.
Autor: Diego Velázquez

