O doutor Éverton da Costa Sagiorato explica que, no planejamento da maioria das viagens, a saúde só entra na lista quando algo dá errado, geralmente longe de casa, do idioma e do médico de confiança. O motivo é simples de entender. Viajar significa expor o corpo a um pacote de novidades ao mesmo tempo: clima diferente, comida diferente, água diferente, às vezes altitude e fuso horário diferentes, e microrganismos com os quais o organismo nunca conviveu. Nada disso é motivo para ficar em casa. É motivo para se preparar.
A boa notícia é que toda essa preparação cabe em um mês de antecedência e em cinco passos concretos. Nenhum deles exige conhecimento médico prévio ou grandes gastos, apenas organização e tempo, que é justamente o ingrediente que os viajantes mais desperdiçam no embalo da empolgação.
Estudar o destino antes de estudar os passeios
Éverton da Costa Sagiorato aponta que cada destino tem um perfil de risco próprio, e conhecê-lo com antecedência orienta todos os cuidados que vêm depois. Regiões de mata e de clima tropical podem exigir proteção contra febre amarela e malária; grandes altitudes, como as dos Andes, pedem adaptação gradual para evitar o mal de altitude; países com saneamento precário concentram os riscos na água, no gelo e nos alimentos crus. Ir sem saber disso é viajar de olhos vendados.
Essas informações estão disponíveis em fontes oficiais, como os sites de órgãos de saúde e os consulados do país de destino, e levam poucos minutos de pesquisa em casa. É o passo mais barato de todos e também o que mais influencia os demais, porque é ele que define quais vacinas serão necessárias, quais medicamentos merecem espaço na mala e quais hábitos precisarão mudar durante a estadia.
A consulta pré-viagem e a farmácia de bordo
Quem tem doença crônica, como hipertensão, diabetes ou asma, deve transformar a consulta pré-viagem em item obrigatório da lista de preparativos. É nela que se ajustam os horários de medicação ao fuso do destino, se calculam as quantidades com folga para atrasos e imprevistos e se emitem receitas legíveis, de preferência com o nome do princípio ativo, que é o que as farmácias estrangeiras conseguem reconhecer.
Medicamentos de uso contínuo viajam sempre na bagagem de mão, nunca na mala despachada. Bagagem extraviada é um contratempo chato; insulina extraviada é uma emergência médica. Segundo o médico Éverton da Costa Sagiorato, a farmácia de bordo se completa com itens simples: analgésico, antitérmico, remédio para enjoo, curativos e soro de reidratação oral, sempre em quantidade proporcional ao tempo de viagem.

Vale incluir nesse passo a contratação de um seguro de saúde para o período da viagem, que é exigência formal de entrada em alguns destinos e prudência básica em todos os outros. Uma única diária de hospital no exterior, paga do próprio bolso e em moeda estrangeira, costuma custar mais do que muitos pacotes de viagem inteiros.
No destino, a regra de ouro da água e da comida
Éverton da Costa Sagiorato explica que boa parte dos problemas de saúde em viagem entra pela boca, a começar pela famosa diarreia do viajante, capaz de sequestrar dias inteiros de um roteiro. Em locais de saneamento incerto, a orientação clássica continua imbatível: água engarrafada e lacrada, inclusive para escovar os dentes, desconfiança do gelo de origem desconhecida e preferência por alimentos bem cozidos e servidos ainda quentes. Frutas, só as que o próprio viajante descasca.
A pele merece o mesmo rigor. Protetor solar reaplicado ao longo do dia e repelente em áreas com mosquitos transmissores de doenças, como dengue e malária, valem mais do que qualquer remédio depois do problema instalado. E a higiene das mãos, tão repetida que virou paisagem, segue sendo a barreira mais eficiente entre o viajante e a maior parte das infecções.
A melhor lembrança é voltar com a mesma saúde da partida
Há algo de contraditório na forma como as pessoas viajam: pesquisam durante semanas o melhor hotel, comparam dezenas de voos em busca de uma pequena economia e embarcam sem dedicar uma única hora à bagagem que não tem substituta, o próprio corpo. Nenhum destino, por mais espetacular, compensa passar metade do roteiro dentro de um pronto-atendimento estrangeiro.
Os cinco passos deste roteiro não pedem dinheiro extra relevante, pedem antecedência. Viajante bem preparado não é o que carrega a mala mais pesada, resume Éverton da Costa Sagiorato, e sim o que resolveu em casa, com calma, tudo aquilo que longe dela custaria caro: a viagem começa muito antes do embarque, e a volta saudável também.

