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Advogados no Brasil > Blog > Notícias > Inteligência Artificial no Direito: O Que a Pesquisa da FGV Revela Sobre o Futuro da Advocacia
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Inteligência Artificial no Direito: O Que a Pesquisa da FGV Revela Sobre o Futuro da Advocacia

Elias Nordven
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6 Min de leitura
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A inteligência artificial generativa deixou de ser uma promessa distante para se tornar parte concreta da rotina jurídica brasileira. Uma pesquisa conduzida pelo Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP revelou que cerca de 80% dos profissionais do setor utilizam essas ferramentas com alta frequência, sendo que 58% deles as acessam diariamente. Os dados, obtidos a partir de entrevistas aprofundadas e de um survey com 495 respondentes do ecossistema jurídico, oferecem um retrato preciso de uma transformação já em curso. Este artigo analisa o que os números significam além das estatísticas, quais riscos emergem dessa adoção acelerada e o que o setor jurídico precisa fazer para não perder o controle do próprio processo de inovação.

Contents
A adoção acelerada e o que ela revela sobre o setorO paradoxo da familiaridade: usar mais não significa usar melhorGovernança ausente e a urgência de um modelo de responsabilidadeO que o setor jurídico precisa fazer agora

A adoção acelerada e o que ela revela sobre o setor

Quando oito em cada dez profissionais do direito já utilizam IA generativa com regularidade, não se trata mais de uma tendência emergente. Trata-se de uma realidade consolidada que avança mais rápido do que a capacidade das instituições de regulá-la, dos escritórios de governá-la e dos profissionais de compreendê-la com profundidade.

Os usos mais comuns identificados na pesquisa incluem pesquisa jurídica, automação de tarefas repetitivas, organização de informações e elaboração de rascunhos de documentos. São aplicações que, à primeira vista, parecem inofensivas e até desejáveis. No entanto, o levantamento também aponta uma tendência preocupante: a automatização de conteúdo sem revisão humana especializada. Ou seja, parte dos profissionais está utilizando a tecnologia para produzir entregas que chegam ao cliente ou ao processo sem o necessário filtro crítico de quem domina tecnicamente a matéria.

Esse dado não é um detalhe menor. O direito é uma área em que a precisão técnica e o julgamento ético são inegociáveis. Um erro gerado por um modelo de linguagem e não revisado pode comprometer estratégias processuais, gerar responsabilidades disciplinares e prejudicar o cliente de forma irreversível.

O paradoxo da familiaridade: usar mais não significa usar melhor

Um dos achados mais instigantes da pesquisa é que 75% dos usuários afirmam utilizar a IA tanto para temas que dominam quanto para aqueles que não dominam. Isso indica que a ferramenta não está sendo usada apenas como suporte em áreas de menor expertise, mas como substituto do raciocínio jurídico em qualquer matéria.

Esse comportamento revela um paradoxo relevante: quanto mais familiar se torna o uso da IA, maior é o risco de dependência cognitiva. O profissional que recorre à ferramenta indistintamente, sem distinguir quando ela agrega valor e quando ela distorce, está, na prática, terceirizando o julgamento que deveria ser seu diferencial competitivo.

A pesquisa corrobora essa leitura ao apontar que, entre os poucos que não utilizam IA ou a utilizam pouco, parte percebe que a não adoção não compromete e, em alguns casos, melhora a qualidade das entregas. Esse dado não deve ser interpretado como argumento contra a tecnologia, mas como um alerta de que o uso irreflexivo pode ser tão problemático quanto a ausência de uso.

Governança ausente e a urgência de um modelo de responsabilidade

O aspecto mais crítico revelado pela pesquisa diz respeito à governança institucional. Apenas 20% das organizações possuem ou estão implementando estruturas formais para orientar o uso da IA, e cerca de 46% declararam não contar com especialistas, comitês ou equipes dedicadas a esse tema.

Essa lacuna é grave. A adoção tecnológica sem políticas claras de uso, sem indicadores de resultado e sem investimento em qualificação profissional transforma uma oportunidade em risco sistêmico. Quando nenhuma instância interna é responsável por monitorar o que a IA produz, quem responde pelos erros é o profissional que assinou o documento, e, em última instância, o cliente que confiou a sua causa àquele escritório ou departamento jurídico.

A pesquisa da FGV aponta que a capacitação é um dos principais gargalos do setor. Há iniciativas de treinamento, mas predomina a percepção de que são insuficientes e superficiais. Treinar para apertar botões não é o mesmo que formar profissionais capazes de avaliar criticamente o que a tecnologia entrega.

O que o setor jurídico precisa fazer agora

A inteligência artificial não vai recuar, e nem deveria. As possibilidades de ganho de eficiência, de ampliação do acesso à justiça e de aprimoramento da pesquisa jurídica são reais e significativas. O problema não está na tecnologia em si, mas na velocidade com que ela foi absorvida sem que os pilares necessários para seu uso responsável fossem construídos.

O momento exige que escritórios, departamentos jurídicos e instituições de ensino tratem a governança da IA como prioridade estratégica, e não como pauta futura. Profissionais que souberem combinar o raciocínio jurídico apurado com o uso criterioso das ferramentas disponíveis serão os mais relevantes no mercado que já está se desenhando.

Autor: Diego Velázquez

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