A possibilidade de servidor público civil exercer advocacia fora do expediente voltou ao centro do debate jurídico e administrativo no Brasil. Um projeto em tramitação propõe autorizar que servidores possam advogar desde que a atividade seja realizada fora do horário de trabalho e não haja conflito de interesses com o órgão ao qual estão vinculados. O tema envolve questões constitucionais, ética profissional, eficiência administrativa e valorização do serviço público. Ao longo deste artigo, analisamos os impactos práticos da proposta, seus fundamentos jurídicos e as implicações para a administração pública e para os próprios servidores.
A discussão sobre o servidor público advogar fora do expediente não é nova. A legislação brasileira já estabelece restrições quanto ao exercício de atividades paralelas, especialmente quando há risco de conflito de interesses ou prejuízo ao desempenho da função pública. No entanto, a proposta atual busca delimitar de forma mais clara os contornos dessa possibilidade, estabelecendo critérios objetivos que permitam o exercício da advocacia sem comprometer a moralidade administrativa.
O ponto central da proposta é a compatibilização entre o direito ao exercício profissional e os princípios que regem a administração pública, como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. O argumento favorável sustenta que impedir de forma absoluta o servidor público de advogar fora do expediente pode representar restrição excessiva ao livre exercício da profissão, especialmente quando não há prejuízo ao cargo ocupado.
Na prática, muitos servidores possuem formação jurídica e inscrição ativa na Ordem dos Advogados do Brasil. Atualmente, dependendo do cargo e da esfera administrativa, o exercício da advocacia pode ser vedado de maneira ampla. A proposta busca diferenciar situações, permitindo que o servidor advogue em áreas que não tenham qualquer relação com suas atribuições funcionais e que não envolvam o ente público ao qual está vinculado.
Do ponto de vista administrativo, a autorização condicionada exige mecanismos de controle e transparência. A declaração prévia de atividades, a fiscalização interna e a definição clara de impedimentos são medidas essenciais para evitar conflitos de interesse. Sem regras bem estruturadas, a flexibilização pode abrir espaço para questionamentos éticos e jurídicos.
Há também um aspecto econômico relevante. O salário de parte dos servidores públicos não acompanha a complexidade das funções exercidas, especialmente em carreiras técnicas. Permitir a advocacia fora do expediente pode representar uma alternativa legítima de complementação de renda, desde que respeitados os limites legais. Esse argumento, contudo, precisa ser analisado com cautela, pois a função pública exige dedicação e compromisso integral com o interesse coletivo.
Outro ponto sensível envolve a percepção social. A sociedade espera que o servidor público atue com total imparcialidade e foco nas demandas do Estado. Caso a atuação privada interfira, ainda que indiretamente, na confiança institucional, o impacto pode ser negativo. Por isso, a proposta precisa ser acompanhada de critérios objetivos que impeçam, por exemplo, a atuação contra o próprio ente federativo ou em causas que possam gerar influência indevida.
Do ponto de vista jurídico, a Constituição Federal assegura o livre exercício profissional, desde que atendidas as qualificações estabelecidas em lei. Ao mesmo tempo, impõe limites à acumulação de cargos e à prática de atividades incompatíveis com a função pública. O desafio está justamente em equilibrar esses dois pilares, sem privilegiar um em detrimento do outro.
A regulamentação adequada pode transformar o debate em uma oportunidade de modernização da gestão pública. Em vez de proibições genéricas, o foco pode migrar para a gestão de riscos e para a prevenção de conflitos de interesse. Modelos semelhantes já existem em outras atividades profissionais exercidas por servidores, com regras específicas de compatibilidade de horários e vedação de atuação em determinadas matérias.
Para que a autorização do servidor público para advogar fora do expediente funcione de forma eficiente, será necessário estabelecer parâmetros claros. Entre eles, a definição do que configura conflito de interesse, a exigência de comunicação formal à administração e a previsão de sanções em caso de descumprimento. A ausência desses elementos pode comprometer a credibilidade da medida.
Sob a perspectiva prática, a mudança pode gerar efeitos positivos tanto para os servidores quanto para o mercado jurídico. Profissionais com experiência na administração pública tendem a ter visão técnica diferenciada, especialmente em áreas como direito administrativo, licitações e políticas públicas. Ao mesmo tempo, essa expertise não pode ser utilizada para obtenção de vantagem indevida.
O debate revela uma transformação mais ampla na relação entre Estado e servidor. A visão tradicional, que exige exclusividade quase absoluta, vem sendo questionada diante das novas dinâmicas profissionais e da necessidade de valorização do capital humano. Contudo, qualquer alteração normativa precisa preservar o interesse público como prioridade máxima.
A eventual aprovação do projeto poderá redefinir os limites entre função pública e atividade privada no campo jurídico. O tema exige análise técnica, responsabilidade legislativa e compromisso com a ética administrativa. A autorização para o servidor público advogar fora do expediente só se sustenta se houver transparência, controle efetivo e respeito rigoroso aos princípios constitucionais.
O equilíbrio entre liberdade profissional e responsabilidade institucional será o verdadeiro teste da proposta. Se bem estruturada, a medida pode representar avanço regulatório. Caso contrário, poderá ampliar zonas de conflito e fragilizar a confiança na administração pública.
Autor: Diego Velázquez

