Fake news sobre urnas eletrônicas nas eleições de 2026: como a desinformação ameaça a democracia brasileira
As urnas eletrônicas completam 30 anos no Brasil em meio a um cenário preocupante: a desinformação sobre o sistema eleitoral é crescente, organizada e cada vez mais sofisticada. Uma pesquisa recente do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia, mapeou mais de três mil conteúdos falsos circulados nas eleições de 2022 e 2024 e revelou que as urnas eletrônicas são o alvo preferencial de quem produz e distribui mentiras sobre o processo eleitoral brasileiro. Com as eleições de 2026 se aproximando, entender a estrutura dessa desinformação, seus alvos secundários e o impacto real sobre a confiança dos eleitores é uma tarefa urgente e politicamente relevante.
A urna eletrônica como alvo central da desinformação
O levantamento do Projeto Confia analisou mais de três mil conteúdos publicados durante os dois últimos ciclos eleitorais. De um conjunto de 716 mensagens selecionadas para análise qualitativa aprofundada, 326 continham ataques diretamente relacionados ao funcionamento das urnas eletrônicas, o equivalente a mais de 45% do total. Nenhum outro tema chegou perto dessa concentração.
O dado é revelador porque expõe uma estratégia deliberada. A urna eletrônica não é atacada de forma genérica ou imprecisa. As narrativas falsas são construídas com linguagem técnica, diagramas adulterados, vídeos manipulados e explicações pseudocientíficas que simulam credibilidade. Conforme apontou a coordenadora do projeto, ninguém critica as urnas apenas dizendo que elas são ruins. As explicações online para convencer as pessoas de que o sistema não funciona chegam a ser sofisticadas, o que torna o combate a esses conteúdos significativamente mais difícil do que simplesmente desmentir afirmações grosseiras.
Depois das urnas, os alvos mais frequentes da desinformação eleitoral são o Supremo Tribunal Federal e outras autoridades, com 27,1% dos conteúdos falsos identificados, seguidos de teorias sobre fraudes na apuração dos votos, com 21,8%, e desinformação sobre regras e logística eleitoral, com 15,4%. O padrão não é aleatório: todos esses alvos formam um ecossistema narrativo coerente, no qual a desconfiança nas urnas reforça a desconfiança nas instituições que as validam.
O impacto real na confiança do eleitorado
Os números sobre a confiança dos brasileiros nas urnas eletrônicas são um termômetro preciso do efeito acumulado dessa desinformação. Em 2022, uma pesquisa do Datafolha divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral apontava que 82% dos brasileiros confiavam no sistema eleitoral eletrônico. Em fevereiro de 2026, levantamento da Quaest registrou que esse índice havia caído para 53%. A queda de 29 pontos percentuais em quatro anos é expressiva e não pode ser atribuída a falhas reais no sistema, que passou por auditorias independentes sem que fossem encontradas evidências de fraude.
A distribuição etária desse dado também merece atenção analítica. Entre eleitores de 35 a 50 anos, metade afirma não confiar nas urnas eletrônicas, uma faixa etária que viveu parte de sua vida adulta durante o período de maior intensidade das narrativas golpistas. Já entre os jovens de 16 a 34 anos, que cresceram com o sistema eletrônico como única referência de votação, a confiança chega a 57%. Paradoxalmente, entre os eleitores com 60 anos ou mais, que têm memória do voto em papel, a confiança está no mesmo patamar dos jovens, em 53%.
O que está em jogo em 2026
O Brasil chegará às eleições presidenciais de 2026 com um histórico inédito de ataques sistemáticos à credibilidade do processo eleitoral. O Projeto Confia afirma que o objetivo do estudo é justamente preparar contranarratiras eficazes e respostas rápidas aos ataques que certamente virão. Essa postura proativa é necessária, mas não suficiente. O combate à desinformação eleitoral não pode depender exclusivamente de organizações da sociedade civil, por mais relevante que seja o trabalho delas.
Há uma dimensão de responsabilidade que pertence às plataformas digitais, ao poder público e à própria mídia. A velocidade com que um conteúdo falso se espalha é exponencialmente maior do que a velocidade de qualquer desmentido, por mais bem fundamentado que seja. Tornar compreensível o caminho do voto desde o momento em que o eleitor pressiona a tecla até a totalização dos resultados, como apontam os pesquisadores, é um caminho legítimo e necessário. Transparência técnica e educação eleitoral contínua são, nesse contexto, ferramentas de proteção democrática tão importantes quanto qualquer dispositivo de segurança da própria urna.
Trinta anos depois de sua adoção, a urna eletrônica brasileira segue sendo um dos sistemas de votação mais auditados e robustos do mundo. O problema não está no equipamento. Está na disputa por quem define a narrativa sobre ele.
Autor: Diego Velázquez

