A psicanalista, especialista em saúde mental e relações familiares, Taiza Tosatt Eleoterio observa que a maternidade costuma chegar acompanhada de uma cobrança silenciosa: a de que a mãe precisa dar conta de tudo, o tempo todo, sem demonstrar cansaço. Entre mamadeiras, reuniões escolares, trabalho e tarefas da casa, muitas mulheres chegam ao fim do dia com a sensação de que fizeram menos do que deveriam. Essa sensação, repetida todos os dias, vira culpa. Entender de onde ela vem e por que insiste em aparecer ajuda a olhar para a maternidade com mais gentileza, sem a régua de uma perfeição que ninguém alcança.
A exigência de ser uma mãe sem falhas
A imagem da mãe ideal é antiga e exigente. Ela está sempre paciente, atenta, disponível e feliz, e nunca perde a calma. Quando a realidade não corresponde a esse retrato, a mulher tende a concluir que o problema está nela, e não na régua. A comparação com outras mães, alimentada pelas redes e pelas conversas de família, reforça essa ideia.
Taiza Tosatt Eleoterio descreve que essa exigência costuma ser assimilada desde cedo, a partir do que a mulher viu e ouviu sobre ser mãe. Ela vira uma espécie de regra interna, que cobra mesmo quando ninguém está olhando.
O cansaço que não aparece nas fotos
O cansaço da maternidade raramente é visível. Ele aparece nas noites mal dormidas, na rotina sem pausa e na sensação de estar sempre em dívida com alguém. Muitas mães sentem que não têm o direito de reclamar, porque o filho é desejado e amado, e acabam guardando o desgaste para si.
Esse silêncio faz o cansaço crescer. Sem espaço para falar, a mulher passa a acreditar que sentir exaustão é sinal de que ama menos, quando, na verdade, é sinal de que está dando muito de si, por muito tempo, com pouco apoio.
De onde vem a culpa de nunca fazer o bastante?
A culpa materna costuma nascer do choque entre o que se espera e o que é possível. Há sempre algo a mais a fazer: brincar mais, trabalhar menos, cozinhar melhor, descansar sem culpa. Como a lista nunca termina, o sentimento de que falta alguma coisa nunca vai embora.
Taiza Tosatt Eleoterio esclarece que sentir culpa não prova que a mãe errou. Em muitos casos, esse sentimento revela o quanto ela se importa com o filho, só que de um jeito que machuca quem o sente. Quando a culpa deixa de ser um aviso e vira um julgamento constante, passa a pesar sobre a autoestima e sobre a saúde mental.
A mãe que se cobra demais e o peso de cuidar de tudo
A mãe que se cobra demais costuma ser aquela que mais cuida. Ela antecipa necessidades, resolve pendências e adia os próprios cuidados, porque sente que, se parar, alguma coisa vai desandar. Com o tempo, o autocuidado vira luxo e a pausa vira motivo de culpa.
Esse padrão, alerta Taiza Tosatt Eleoterio, tem efeitos também sobre o ambiente familiar. Os filhos percebem o cansaço, mesmo quando ele não é dito, e podem aprender que cuidar significa se esquecer de si. Cuidar da mãe, nesse sentido, também é cuidar da família.
Pequenas pausas e o valor do apoio de quem está por perto
Pedir ajuda ainda é difícil para muita gente, porque parece admitir um fracasso. Na prática, dividir o cuidado é o que torna a maternidade possível por muitos anos. A ajuda não precisa ser grande: pode ser alguém que fique com a criança por uma hora, que assuma uma refeição ou que simplesmente escute sem julgar.
Alguns gestos de apoio que costumam fazer diferença:
- uma conversa franca com o parceiro ou com a família sobre a divisão das tarefas;
- um momento do dia reservado para a mãe, ainda que curto;
- a escuta de uma amiga ou de outra mãe que viva algo parecido;
- o acompanhamento psicológico, quando o cansaço e a culpa passam a pesar demais.
Esses gestos, indica Taiza Tosatt Eleoterio, ajudam a mãe a recuperar o fôlego e a lembrar que ela também é uma pessoa com necessidades. Quando o apoio chega, a culpa perde espaço e o cuidado volta a ser compartilhado.
Cuidar de quem cuida também faz parte da maternidade
Tendo isso em mente, fica claro que a culpa e o cansaço da maternidade não são sinais de fracasso, e sim consequências de uma exigência que não cabe em nenhuma rotina real. Reconhecer esse peso é o primeiro passo para aliviá-lo.
Taiza Tosatt Eleoterio entende que acolher a mãe é parte essencial de cuidar da família. Quando a mulher encontra escuta, apoio e permissão para descansar, ela deixa de medir o próprio valor pelo que consegue entregar e passa a se sentir inteira, mesmo nos dias em que o possível é pouco.

